sexta-feira, 9 de março de 2012


MULHER que Ama, Vive Intensamente e tem Esperança

Axé, axé, axééé pessoal, que gostosa essa semana e quanta coisa boa… Quantas lembranças de Mulheres especiais, não é mesmo? Stacey Herald que luta pelo seu direito de ser mãe como comentou Mônica Molina, Dorina de Gouvêa Nowill como Ana Maria nos “apresentou”, Irmã Dulce que, mesmo com a saúde abalada seriamente, não deixou de fazer o Bem, não deixou de bater de porta em porta pelas ruas de Salvador, nos mercados, feiras livres ou nos gabinetes de governadores, prefeitos, secretários, presidentes da República com a determinação de ajudar o próximo, tanto que invadiu cinco casas na Ilha dos Ratos, para abrigar doentes que recolhia nas ruas. E mesmo expulsa dos lugares, ela peregrinou durante uma década, levando os seus doentes por vários lugares, até, por fim, instalá-los no galinheiro do Convento Santo Antônio. O “o anjo bom da Bahia”, como era chamada Irmã Dulce, que fez da própria vida um instrumento vivo da fé, atitude e compaixão, como bem lembrou Donizette.  Enfim, está difícil escolher…

Portanto, quero falar não de uma mulher, mas de Mulheres que misturam profano e sagrado, necessidade e sentimento, trabalho e prazer com cultura, tradição, axé e família.
Essas Mulheres são as BAIANAS DE ACARAJÉ que receberam em 14/01/2005 o registro de Patrimônio Cultural do Brasil – patrimônio imaterial – inscrito no Livro de Registro dos Saberes.
No Brasil colonial, o acarajé era vendido nas ruas em tabuleiros que as escravas equilibravam sobre suas cabeças, enquanto iam cantando para atrair a freguesia. Com as vendas da iguaria, muitas delas conseguiam comprar sua própria liberdade.
Hoje, a venda do acarajé tornou-se um importante comércio, com cerca de quatro mil baianas espalhadas por vários pontos fixos que se tornaram verdadeiros pólos de atração turística e gastronômica, sem que haja necessariamente uma ponte com o candomblé. No entanto, o acarajé, um bolinho de feijão fradinho, cebola, sal e frito no azeite de dendê chamado pelo povo-de-santo de àkàràque significa bola de fogo, é alimento sagrado de Iansã e originalmente só podia ser vendido pelas filhas de Iansã – orixá que, entre tantas qualidades, atributos e representações, é a mulher batalhadora que vende quitutes no mercado para sustentar seus filhos.
Uma lenda africana escrita por Reginaldo Prandi em seu livro ‘Mitologia dos Orixás’ conta que Iansã, após se separar de Ogum e se unir a Xangô, foi enviada à terra dos baribas em busca de um preparado, uma poção mágica cuja ingestão permitia cuspir fogo pela boca e nariz. Iansã, sempre curiosa e ousada, usou também a fórmula, e desde então possui o mesmo poder que Xangô. Relatos históricos revelam ainda que para homenagear esses orixás, os africanos faziam cerimônias com o fogo, como o àkàrà, no qual o iniciado engole mechas de algodão embebidas em azeite-de-dendê em combustão – ritual que lembra o preparo do tradicional acarajé.
Segundo o antropólogo Raul Lody “o acarajé é uma atividade identificada com a mulher. A mulher tem o conhecimento da cozinha da mesma forma que tem do mercado, o mundo do mercado é o mundo das mulheres. O ato de mercar e de vender é da mulher  como uma importante atividade econômica. Além disso, o acarajé marca mitologicamente o mundo da mulher com Iansã, acarajé é feminino”.
Aliás, os colares, anéis e toda a indumentária própria das baianas como panos da costa, turbantes, nos fios de contas retratam a beleza da mulher como marca distintiva de sua condição social e religiosa.
Não menosprezem essas Mulheres, tudo tem uma simbologia e uma função, a vestimenta, o preparo, a venda, o tabuleiro, o ato de servir o alimento. Tudo é ritual sagrado interagindo com o profano, ou se preferirem, profano com sagrado, necessidade com sentimento, trabalho com prazer…
Com todos esses Saberes, só temos que vibrar positivamente por essas Mulheres que trabalham muito, que sustentam seus filhos e ainda marcam a história brasileira com esse registro que mantém viva a cultura, a tradição e a religião afro-descendente, além de valorizar um ofício feminino, um ofício feminino tradicional da mulher afro-descendente.
Ah, o dia em que se comemora o “Dia da Baiana de Acarajé” é 25 de novembro, momento em que centenas de baianas se reúnem para comemorar a data no Pelourinho.
 Por fim, quem quiser apurar mais ainda o saber sobre acarajé, baianas de acarajé, Iansã e toda a magia que se mistura nos tabuleiros e terreiros, assista o documentário abaixo. Vocês comprovarão a riqueza e a importância do aprendizado, do trabalho e da tradição que essas Mulheres lindamente preservam.