quarta-feira, 6 de janeiro de 2016



                                                  Preto Velho e Erês !


Então, Preto Velho ou Preta Velha é um grau dentro da Umbanda, eles trazem o mistério ancião, eles trabalham a humildade, a sabedoria, eles nos ensinam isso como uma doutrina de impacto, você aprende a respeitar o mais velho, o Preto Velho, o que ele representa, você aprende a respeitar isso. 

E quando nós estamos incorporados do Preto Velho, é, nós recebemos um pouco desse mistério. 

Então, o trabalho de Umbanda é um trabalho muito peculiar, quando a gente incorpora, trabalha incorporado é muito comum que os consulentes tenham problemas muito parecidos com os nossos problemas e nossos guias incorporados parecem ter solução para tudo, com paciência, com tranquilidade, com amor, com uma palavra, com carinho, às vezes tudo que o consulente precisa é um abraço do Preto Velho, então eles tem isso para oferecer, eles têm essa força. 

A gente costuma usar para Preto Velho: vela branca ou vela bicolor, eles usam guias que podem ser: guias pretas e brancas ou guias feitas de lágrimas de Nossa Senhora ou terço ou rosário, são muito rezadores, mandingueiros – mandingueiro no sentido de rezador – trabalham com água, com erva, com pedra. 

A gente vê muito o sinal da cruz nos seus pontos riscados porque a cruz é um símbolo de Obaluayê e eles trabalham o mistério ancião que é o mistério que está dentro da força de Obaluayê e Nanã. 

Assim como o símbolo de Caboclo é a flecha e a flecha está ligado ao mistério de Oxóssi, então esse simbolismo enriquece. 

Nos pontos riscados de Preto Velho você vai ver cruzes ou cruzeiro e também símbolos dos outros Orixás como estrela, sol, montanha, coração, que vai revelar no campo de quem aquele Preto Velho está trabalhando, um ponto riscado pode ser: o ponto riscado do Preto Velho ou ponto riscado de trabalho. 

Então, nós temos Pretos Velhos que trabalham na força de todos os Orixás, o mistério ancião, o mistério Preto Velho é de Obaluayê, mas tem Preto Velho d Oxalá, de Oxum, de Oxóssi, de Xangô, de Yemanjá, de Nanã, no entanto não é tão fácil identificar. 

Com Caboclo você fala “Caboclo Sete Montanha – de Xangô”, você fala “Caboclo do Fogo – de Xangô”, “Caboclo do Sol – de Oxalá e de Xangô”, “Caboclo Tupã – de Oxalá”. 

Agora, Preto Velho: Pai João – o nome não revela, Vó Maria – o nome não revela, Pai Joaquim – o nome não revela, só se ele falar “Sou Pai Joaquim do Cruzeiro” – aí sim, cruzeiro é de Obaluayê, “Pai Joaquim das Almas – almas de Obaluayê”, “Pai Joaquim do Mar – é de Yemanjá”, “Pai Joaquim da Cachoeira”, “Pai Joaquim das Matas”, “Pai Joaquim da Montanha”, então às vezes o Preto Velho revela quem é o seu Orixá, mas na maioria das vezes o nome não revela, então só durante, trabalhando com ele durante algum tempo é que a gente vai saber. 

Agora, existem aqueles Pretos Velhos que a gente chama Preto Velho Quimbandeiro. 

O que é um Preto Velho Quimbandeiro? 

É um Preto Velho que trabalha bastante com a Esquerda, que tem uma ligação com a Esquerda, é um Preto Velho que trabalha bastante junto com os Exus. 

É, um Preto Velho muito Quimbandeiro é Pai Cipriano porque aí tem uma relação com São Cipriano que as pessoas dizem “O livro de São Cipriano é um livro de magia negra”, o livro de São Cipriano é livro que conta a história de São Cipriano e tem um monte de receita que não era de São Cipriano, então essa é a verdade e São Cipriano é um homem que se tornou um santo. 

Então, fala a linha dos Pretos Velhos está ligada a Obaluayê, Nanã Buroquê, está ligada ao Pai Omulu também, a linha dos Pretos Velhos em muitas literaturas aparece como: Obaluayê sincretiza com São Lázaro, Omulu sincretiza com São Roque, Nanã sincretiza com Sant’Ana, mas tem uma ligação forte também com São Cipriano – o santo – pela questão de serem mandingueiros os Pretos Velhos, rezadores, eles representam uma magia também, são praticantes de magia. 

Então, São Cipriano é um santo de fato, ele não é representante da magia negra, ele é um santo e aí Pai Cipriano vai ser um Preto Velho que é bastante quimbandeiro. 

Agora, qualquer Preto Velho pode ser quimbandeiro, então há Pretos Velhos que trabalham bastante com a Esquerda, aí que a gente fala que é Preto Velho Quimbandeiro, que é aquele que tem essa facilidade de lidar. 

E há uma linha no astral de Preto Velho Quimbandeiro, então independente de quem seja o seu Preto Velho há trabalhos que é possível chamar os Pretos Velhos Quimbandeiros, que são o quê? 

Pretos Velhos que são quebradores de demanda, Pretos Velhos que são mandingueiros, Pretos Velhos que são feiticeiros – da boa feitiçaria, da boa magia. 

A gente falou sobre Caboclos e é a mesma coisa, dentro da linha de Caboclos a gente também tem Caboclo velho. 

Então, há no astral Caboclos que estão no mistério ancião - um Caboclo velho é um Caboclo que traz o mistério ancião. 

Então, recapitulando: no mistério Caboclo nos temos Caboclos anciãos, Caboclos Quimbandeiros. 

O Caboclo ancião geralmente se apresenta como um pajé, um curador, esses Caboclos velhos muitos deles trabalham com a marca ou maracá que é o chocalho, trabalham com o cachimbo, muitos deles trabalham com reza, com erva. 

Então, Caboclo velho geralmente é um Caboclo benzedor, um Caboclo curador, um Caboclo pajé. 

Há a linha de Caboclos Africanos são os Caboclos que tem uma ligação, é, forte com Omulu, geralmente Caboclos Africanos também são Caboclos Quimbandeiros. 

Quem é o Caboclo Quimbandeiro? 

É um Caboclo que trabalha bastante com a Esquerda, entre os Caboclos Quimbandeiros alguns são muitos conhecidos como Seu Pantera Negra é considerado: O Caboclo Quimbandeiro. 

Mas, há Caboclos que são muitos quebradores de demanda como Seu Cobra Coral, como Seu Ventania, como Seu Gira Mundo, considerados Quimbandeiros que não são o Caboclo Quimbandeiro, mas que fala “É esse Caboclo é bastante Quimbandeiro”, no sentido de dizer: esse Caboclo quebra bastante demanda. 

Mas, há no astral falanges de Caboclos Quimbandeiros, de Caboclos velhos e que podem ser chamadas, claro, quando o Caboclo chefe da casa tem condição de falar: 

“Nós vamos chamar agora uma falange de Caboclo Quimbandeiro. 

Há Terreiros de Umbanda que trabalham como falanges de Caboclo velho pra fazer trabalho de cura, então isso são recursos de Umbanda. 

As linhas de Umbanda, elas tem ramificações, tem Preto Velho de todos os Orixás porque tem uma parte de Preto Velho Quimbandeiro, tem uma parte de Preto Velho curador, então tem Guias que tem especialidades num ou outro campo.

A gente vai, falamos sobre Caboclos, sobre Preto Velho, vamos agora começar a falar sobre as crianças, então para na próxima aula a gente dar continuidade a essas linhas de trabalho.

Quem são as crianças na Umbanda? 

As crianças representam o mistério infantil, diferente de Caboclo e Preto Velho, criança não é exatamente um espírito plasmado de criança porque as crianças são entidades realmente infantis, não são alguém,  se comportando de maneira infantil, mas são, as crianças são entidades realmente infantis, então as crianças na Umbanda, boa parte delas são seres encantados que nunca encarnaram. 

Todos nós, humanos, somos seres naturais da dimensão humana, antes de ser um natural, nós fomos encantados. 

Então, os encantados eles são infantis em relação a nós, as crianças de Umbanda são encantados que estão entrando na realidade humana. 

Algumas crianças já encarnaram, uma ou outra vez, mas não foram adultos, muito raramente você tem uma criança – criança de Umbanda: êre – que já foi um adulto. 

Inclusive, êre é uma palavra que vem do Candomblé, do culto de Nação, êre é um estado
de infantilidade. 

Quem é o êre? 

Na origem da palavra quando no Candomblé alguém faz uma camarinha, essa pessoa vai ser iniciada no Candomblé - morrer e nascer outra vez simbolicamente - então, no momento em que ela está morrendo para o profano e nascendo para o sagrado começa a se comportar de maneira infantil, isso é chamado de estado de êre, é diferente de incorporar uma criança. 

Porque se o Orixá daquele adepto é Ogum, ele vai entrar em estado de êre na força de Ogum. 

A gente não, a gente recebe uma criança, a criança pode ser chamada de êre por dizer: é um espírito que está naquele estado infantil. 

Ibeji ou Ibejí são os Orixás gêmeos considerados infantis e crianças na África, então Ibeji é o Orixá. 

Nós não incorporamos o Orixá, incorporamos uma criança, um espírito, uma entidade infantil, mas também é chamado de Ibeji pela relação com o Orixá Ibeji que não é um dos quatorze, mas é um Orixá que existe, um par de Orixás, um casal de Orixás. 

Ibeji quer dizer gêmeos na língua Yorubá, então Ibeji é uma força representante do mistério encantado, dos encantados, não da encantaria Gêge, não dos encantados de um Candomblé Gêge, mas encantados de seres encantados que são anteriores a nós, são infantis em relação a nós assim são as crianças que nós incorporamos. 

Cosme e Damião são dois santos Católicos, Doun não é santo Católico, Doun não existe na Igreja Católica, Doun foi adicionado a Cosme e Damião dentro da religião de Umbanda. 

Então, Ibeji tem um irmão, um terceiro irmão de Ibeji na cultura Yorubá chama: Dou, daí surgiu Doun – Cosme, Damião e Doun. 

Diz o pai Ronaldo Linares que tem uma história que no Rio de Janeiro perto da Tenda Nossa Senhora da Piedade havia uma primeira lojinha de artigos de Umbanda e santos populares e tinha lá Cosme e Damião e um rapaz que trabalhava na loja quebrou uma estátua de Cosme e Damião e sobrou um pequeninho e ele colocou na frente de uma outra estátua de Cosme e Damião grande. E todo mundo perguntava:

 “Quem é esse pequeninho?”, todos sabiam que Cosme e Damião são considerados padroeiros das crianças e que guarda a linha das crianças na Umbanda e aí colocaram o pequeninho e aí ficou parecendo Cosme e Damião e uma criancinha, representando as crianças da Umbanda – criancinha por ser pequeno, mas é igual os outros dois grandes. 

No Rio de Janeiro Cosme e Damião era chamado de Dois Dois e diz que o menino chamou de Dois Um e aí de Dois Um pra Doun, de Doun pra Dou - e mais ou menos ninguém sabe muito bem como é essa história e é contado por pai Ronaldo que é merecedor de todos os nossos créditos da sua integridade, da sua verdade - então, Cosme, Damião e Doun, Doun representa as crianças, tem êre que tem o nome de Doun, é, tem êre que é chamado de cosminho. 

Então, quem são nossos êres, nossos Ibejis, nossos cosminhos, nossos douns? 

São crianças e ponto final. 

Crianças encarnadas? 

Um ou outro encarnou, mas não necessariamente eles precisam ter encarnados, eles são aqueles que trazem o mistério infantil, o mistério criança. 

De quem é esse mistério infantil? 

O mistério infantil pertence à Oxumaré. 

Não é o mistério de Ibeji? 

Também é o mistério de Ibeji, mas dentro dos quatorze Orixás identificando a partir dos quatorze Orixás está no mistério de Oxumaré e ponto final.


      Caboclo é uma opção e não uma falta de opção.

Então, quando o Caboclo se apresenta como Aymoré,  não necessariamente ele foi um índio que teve por batismo esse nome, ele se apresenta como Tupinambá, Tupinambá foi um tronco cultural e linguístico, não foi um índio. 

Ele pode se apresentar como Caboclo Guarani, é, Caboclo – a gente já falou – Ubirajara, Icaraí, Guaraci, Caboclo Jurema – 

Jurema é o nome de uma árvore, jurema é o nome da bebida que faz com a árvore, jurema é o nome de um ritual, jurema é o nome da mãe, a divindade que habita aquela árvore. 

Existe jurema branca, jurema vermelha, jurema preta – e a Cabocla Jurema? 

Cabocla Jurema é alguém que traz essa força, essa energia, o seu nome é simbólico. 

Quantas Caboclas Jurema existem? 

Muitas Caboclas Jurema. 

Então, isso é hierarquia, isso é o simbolismo, mas todos os Caboclos – e aqui eu estou falando, é, Caboclo, Caboclos, Cabocla e quando eu digo Caboclo eu quero dizer: Caboclo e Cabocla – então, que entenda bem, Caboclos e Caboclas e não são apenas índios e índias, mas que representam uma cultura, uma força, um conjunto de valores, então o Caboclo traz para nós esse conjunto de valores. 

A gente falou da simplicidade, então quando o Caboclo se coloca como um homem simples e é esse um dos objetivos, a pessoa simples se sente a vontade e a pessoa arrogante, a pessoa soberba, a pessoa preconceituosa, esta pessoa vai precisar baixar um pouquinho o seu ego, essa pessoa vai ter que “descer do tamanco” e essa pessoa preconceituosa, arrogante, soberba, vai aprender a pedir a benção para o Caboclo, tomar-lhe a mão, beijar a mão e pedir a benção meu Pai porque é esse Caboclo, esse simples que vai lhe ajudar, que vai cortar as demandas, que vai limpar, que vai purificar, que vai dar um força, que vai dar uma energia, que vai ganhar a sua confiança, o seu amor, a sua fé e que vai transformar essa pessoa em alguém menos arrogante, alguém menos egocêntrico, alguém menos vaidoso, alguém menos soberbo porque agora ele começa a ver que também o Caboclo é uma imagem na qual se espelhar, também o Caboclo, é, naquele momento o Caboclo também é um objetivo e vida, também é representante de um conjunto de valores, de novos valores, representa uma mudança de paradigma, o Caboclo é um: 

Exemplo – exemplo de virtudes, exemplo de valores e ali o consulente seja quem for vai aprender a respeitar o diferente. 

Então, a Umbanda de uma forma subjetiva ensina o respeito ao diferente porque se o Caboclo está ali como homem simples e na maioria das vezes como um índio, você está aprendendo a respeitar essa cultura diferente, você está aprendendo a respeitar o homem vermelho, você está aprendendo a ser como ele, a adquirir essa humildade e pra aqueles que se acham muito sabidos, mas que na verdade são ignorantes porque ignoram a cultura do outro, que pensam que o índio é sem cultura, que na verdade ele é apenas de uma cultura diferente, que busquem mais informação sobre os valores dessa cultura.

A gente tem na história da colonização das três Américas, histórias lindas sobre os valores da cultura indígena e não é uma cultura apenas da cultura indígena Brasileira, ao incomum para os nativos das três Américas e para nativos do mundo inteiro. 

Existe uma carta de um chefe Seattle
(http://www.comitepaz.org.br/chefe_seattle.htm), escrita em 1854, endereçada ao governo americano em Washington porque naquele momento eles pretendiam comprar, o governo americano pretendia comprar as terras dos índios, com objetivo de retirá-los daquela terra, uma terra preciosa e coloca-los numa reserva, isso de fato foi feito nos Estados Unidos – eles montavam reservas e colocavam os índios morando naquelas reservas aonde eles passavam fome, passavam tudo quanto é tipo de dificuldade porque o índio estava acostumado a estar a sua terra que tinha abundância, ele vivia do búfalo, da carne do búfalo, vivia daquela cultura que existia ali que ele foi perdendo, foi obrigado a perder – Então, o chefe do Seattle, responde para o governo norte-americano: 

“Como é que se pode comprar ou vender o céu ou o calor da terra? 

Eu não sei. 

Como é que se pode comprar o ar, a água? 

A seiva que corre nas árvores é como o sangue que corre nas nossas veias. 

Eu não sou o dono da terra, eu sou filho da terra, como eu posso comprar ou vender a terra? 

Até eu que sou propriedade da terra e não a terra é a minha propriedade. 

Nós não tramamos a teia da vida, nós somos parte dela, nós respiramos o mesmo ar. 

Se você quer comprar a terra, então primeiro entenda que essa terra é sagrada para o meu povo, depois que meu povo morre, eles não se esquecem dessa terra. 

Eu não sei como é isso para o homem branco, o homem vermelho, talvez porque o homem vermelho seja ignorante, eu não sei como é para o homem branco. 

Se vocês vão comprar essa terra, se nós vamos vender essa terra, então vocês devem ensinar aos seu filhos que essa terra é sagrada, que os animais são sagrados e mais, o que acontecer a terra, acontecerá ao filho da terra. 

Se você cospe na terra, isso volta pra você, o dia que acabarem porque o homem branco extermina os animais, acabarem os animais, o homem morrerá também de uma profunda solidão, mas eu não sei dessas coisas porque eu sou um homem vermelho, mas de uma coisa eu sei – diz esse chefe Seattle, em 1854,  ele diz, " eu sei que o meu Deus e o seu Deus são o mesmo Deus, eu só não sei porquê, por qual razão nos colocou nessa condição". 

Então, isso é uma cultura, isso é um conjunto de valores. 

A Umbanda nos chama para incorporar o Caboclo, mas não apenas para incorporar o Caboclo, a Umbanda nos chama para incorporar os valores do Caboclo. 

Então, nós temos na Umbanda uma religião mediúnica, na qual a principal forma de mediunidade é a mediunidade de incorporação. 

A Umbanda é uma religião de transe mediúnico, a Umbanda é uma religião de possessão, a Umbanda é uma religião na qual em estados alterados de consciência, pelo transe mediúnico, unicamente pelo transe mediúnico nós ficamos tomados, possuídos, incorporados, manifestados de entidades que se apresentam em arquétipos. 

Então, não importa qual Caboclo você trabalha, ele traz um conjunto de valores incomum para todos os Caboclos e a Umbanda lhe chama não apenas para incorporar esse Caboclo, mas para incorporar os valores desse Caboclo para sua vida. 

Então, a Umbanda lhe chama para você operar um crescimento espiritual a partir dos valores do Caboclo, do Preto Velho, da criança, do baiano, do Boiadeiro, do Marinheiro, do Cigano, do Exu, da Pombagira, a Umbanda lhe chama a respeitar o diferente, pedir a benção para o Caboclo aqui, pedir a benção para o Preto Velho ali, dar a benção pra criança, aprender o respeito e o amor pelo Exu, pela Pombagira, respeitar uma mulher incorporada de Exu, um homem incorporado de Pombagira, respeitar e entender a manifestação espiritual: feminina no masculino, masculino no feminino, o diferente, os valores diferentes, as diferentes formas de olhar para a vida. 

Então, o Caboclo traz esses valores relacionados à natureza, à simplicidade e o Caboclo representa também a força, o Caboclo é sinônimo do homem forte, do guerreiro, do líder, então quando você incorpora o Caboclo, naquele momento, você – como somos mais de 90% dos médiuns de Umbanda são semiconscientes e aqueles que são inconscientes também estão aprendendo de forma inconsciente – então, ao incorporar o Caboclo se nós estivermos de mente e coração abertos, estaremos incorporando os valores do Caboclo, estamos nos “encaboclando”, nos “empoderando” no mistério do Caboclo, estamos nos tornando pessoas melhores.
                         

                  Caboclo – Preto Velho – Erês-Crianças.



Então, quem é o Caboclo? O que é o Caboclo? O que o Caboclo representa pra religião de Umbanda? O que significa? Por que nós temos uma linha de trabalho chamada linha dos Caboclos
na Umbanda? E dentro da Umbanda a linha de Caboclo é a linha mais expressiva, é, a mais presente, a mais forte, a mais significativa junto com a linha de Preto Velho. 

Então, nós poderíamos dizer que as duas linhas mais fortes são: de Caboclo e Preto Velho e na maioria das regiões do Brasil, a linha de Caboclo tem se mostrado como a linha mais forte, mais
determinante, mais incisiva, mais presente, mais significativa, seguida da linha de Preto Velho.

Então, a gente pode inclusive trazer o contexto histórico, vamos voltar – sempre que fala em contexto histórico a gente acaba voltando na história de Zélio de Moraes e do Caboclo das Sete
Encruzilhadas – então, vamos voltar até que todos tenham isso “de cor”, na “ponta da língua”, a primeira manifestação de Umbanda foi no dia 15 de novembro de 1908, Zélio de Moraes incorpora um espírito e ao ser questionado: 

“Quem é você?”, ele responde: “Se eu preciso ter um nome, me chame Caboclo das Sete Encruzilhadas”, muito bem.  É um nome simbólico, então Caboclo das Sete Encruzilhadas, não é um nome da sua identidade, é um nome simbólico esse Sete Encruzilhadas. 

E Caboclo? Qual é o simbolismo em si de Caboclo? 

O que quer dizer Caboclo? 

Quando alguém diz: “Eu sou um caboclo”, o que ele está querendo dizer com isso: eu sou um caboclo? 

Então, vamos a palavra: caboclo. O que quer dizer caboclo? 

Na cultura Brasileira, na língua portuguesa, qual a terminologia da palavra caboclo?

Quer dizer: simples. Caboclo é isso: é um homem simples. 

Quando uma entidade, um espírito diz que é um Caboclo, isso tem sido considerado sinônimo de índio, mas Caboclo não é sinônimo de índio. 

Quando alguém perguntou para aquela entidade: quem é você? 

Ele não respondeu: eu sou o índio Sete Encruzilhadas; ele respondeu: “Eu sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas”. 

Então, há uma diferença entre ser caboclo e ser índio porque um índio pode ser um caboclo, mas um caboclo não é necessariamente, nem obrigatoriamente um índio.

No entanto, para a Umbanda quase todos os Caboclos tem se apresentado como índio e vamos lá, a pergunta que não quer calar é: 

Todo Caboclo é índio? 

Não necessariamente. Então, esta é a questão, nem todo Caboclo é índio e nem todo Caboclo foi um índio ou teve uma encarnação como índio. 

Então, os espíritos que se manifestam como Caboclo em sua grande maioria, eles trazem um pouco dessa cultura nativa, dessa cultura do índio, mas não necessariamente eles foram índios. Mesmo que não tenha sido índio, ele pode querer se apresentar como índio.

Então, essa é a liberdade que a Umbanda dá, isso chama-se linha de trabalho, forma de apresentação, hierarquia, aquele espírito assume uma forma plasmada, ele se assenta numa hierarquia, se você tem tantos Caboclos Pena Branca, então um deles é o primeiro Pena Branca, o hierarca Pena Branca, aquele que é o dono do nome, o responsável do nome, aquele que em algum dia se identificou com aquele mistério Pena Branca.

No caso de Pena Branca tem a história de um índio e foi chamado e identificado que teve um nome de índio Pena Branca, a gente tem um histórico desse índio num texto do Edmundo Pelizari. 

Então, existe o índio Pena Branca, existiu o índio, é, Ubirajara, existe na história, na literatura Brasileira de José de Alencar tem lá Ubirajara, a história de Ubirajara, é, do índio Ubirajara. 

Então a gente, por exemplo, Urubatão é nome praticamente de um mito indígena, de um herói indígena. 

Agora, quando você fala Caboclo Tupã, Tupã é o nome da divindade, da deidade, não para todas as tribos Tupi Guaranis, para alguns Tupã era uma das divindades, para outros Tupã era uma referência a uma força: ao trovão. 

Mas, quando o Caboclo dá o nome de Tupã, é, quer dizer que ele está fazendo uma referência a uma força, a uma energia, diz respeito a qual linha que ele está trabalhando, então quem é ele? 

Ele é um Caboclo. 

Você sabe quem é o Caboclo? 

Não, você não sabe quem é o Caboclo, você só sabe o que ele está querendo lhe apresentar, o que ele está querendo lhe mostrar.

Então, o Caboclo das Sete Encruzilhadas havia sido Frei Gabriel de Malagrida – Frei Gabriel de Malagrida foi um intelectual, foi um homem de uma cultura europeia - no entanto, ele prefere se apresentar como Caboclo, diz que foi índio e se apresenta como Caboclo, como homem simples. 

Por que apresentar-se como Caboclo das Sete Encruzilhadas? 

Primeiro, a gente já comentou para que não haja o culto a personalidade, para que não haja o culto ao ego, como caboclo, como homem simples. 

Nós podemos nos lembrar que isso aconteceu numa sessão Espírita em que ali os médiuns estavam incorporando espíritos de índio, espíritos de negro e o dirigente da sessão estava convidando esses espíritos a se retirarem porque eles não tinham o mesmo nível de cultura, de informação, de sabedoria, eles não eram doutores, não eram filósofos, então há uma confusão entre bondade e cultura. 

Um homem pode ser extremamente culto, intelectual, ter muito conhecimento e não ser um homem bom. 

E às vezes a pessoas simples, a pessoa que não teve muito acesso a cultura, muitas vezes se sente intimidada quando está diante de alguém que se apresenta cheio de conhecimento, de cultura, de informação porque é comum no dia-a-dia as pessoas que adquirem muito conhecimento, é como assumirem uma postura de arrogância, então aquele que já se apresenta dessa forma de certa maneira já cria um certo acanhamento na pessoa que é simples. 

Então, apresentar-se como um simples que é isso que o Caboclo pretende: apresentar-se como uma pessoa simples, faz com que os outros simples e humildes consigam conversar e estabelecer uma relação na mesma altura, no mesmo nível. 

É, nos textos de Leal de Souza que é o primeiro escritor de Umbanda, Leal de Souza foi médium, um intelectual, um escritor que na época de Zélio de Moraes frequentou o Espiritismo, era um expositor, um médium falante que dava palestras, que ensinava a doutrina Espírita, que ao conhecer a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade e Zélio de Moraes se torna um Umbandista. 

Leal de Souza, o autor do primeiro livro de Umbanda que chama-se: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de
Umbanda. 

É, Leal de Souza ali no primeiro livro de Umbanda fala sobre o Caboclo das Sete Encruzilhadas e ele diz que o Caboclo das Sete Encruzilhadas se comunica de uma forma simples e humilde com os humildes e se comunica de uma forma mais intelectualizada com as pessoas que são intelectualizadas. 

Então, apresentar-se de uma forma humilde ou comunicar-se de uma forma humilde é uma opção e não uma falta de opção para os Caboclos então, que isso fique muito claro. 

O Caboclo ele não é - ele pode ser - mas ele não é sinônimo de bugre, não é sinônimo de ignorância, não é sinônimo de falta de conhecimento, não é sinônimo de espírito atrasado e nem o índio também não é sinônimo de espírito atrasado, nem de falta de cultura. 

O índio ele tem uma outra cultura, o índio tem uma cultura diferente, isso não é falta de cultura. Isso quer dizer que ele tem a cultura dele, que não é a cultura do europeu, que não é a cultura do branco, diz a cultura do homem vermelho, a cultura do índio. 

E dentro da cultura do índio nós temos a cultura do índio Tupi, a cultura do índio Guarani, a cultura do índio Karirri, a cultura do índio Xavante, a cultura do índio Xocó, a cultura do índio Tupinambá, a cultura do índio Aymoré, a cultura do índio Brasileiro, a cultura do índio norte-americano, então a cultura indígena antiga. 

E há uma ligação entre essa cultura e a cultura dos Maias, a cultura dos Astecas, as culturas aborígenes em torno do mundo, as culturas naturais, as culturas nativas, as culturas que louvam, que cultuam, que adoram, que amam e vivem em harmonia com a natureza. 

Então, Caboclo tem uma mensagem relacionada a essa outra forma de ver o mundo, essa outra forma de ver a vida, então aquele que é caboclo ele traz uma mensagem de simplicidade, de ver a vida com simplicidade, de relacionar-se com simplicidade na vida. 

Então, há uma mensagem implícita na presença do Caboclo, então ser Caboclo representa alguma coisa dentro da Umbanda, ser Caboclo representa na Umbanda um conjunto de valores, uma forma de expressar-se, uma maneira de ser, que vai muito ao encontro da cultura indígena - mas não apenas da cultura indígena, mas não apenas da cultura indígena Brasileira – vai ao encontro da natureza, das forças da natureza, da simplicidade do ser e da força que isso pode representar.



     Prece-poema a “Pai Benedito de Aruanda”

Pai Ronaldo Linares


Meu bondoso Preto-Velho!
Aqui estou de joelhos, agradecido contrito, aguardando sua benção.

Quantas vezes com a alma ferida, com o coração irado, com a mente entorpecida pela dor da injustiça eu clamava por vingança, e Tu, oculto lá no fundo do meu Eu, com bondade compassiva me sussurravas ESPERANÇA.

Quantas vezes desejei romper com a humanidade, enfrentar o mal com maldade, olho por olho, dente por dente, e Tu, escondido em minha mente, me dizias simplesmente:

“Sei que fere o coração a maldade e a traição, mas,
responder com ofensas, não lhe trará a solução. Pára, pensa, medita e ofereça-lhe o perdão. Eu também sofri bastante, eu também fui humilhado, eu também me revoltei, também fui injustiçado.

Das savanas africanas, moço, forte, livre, num instante transformado em escravo acorrentado,nenhuma oportunidade eu tive. Uma revolta crescente me envolvia intensamente, porque algo me dizia que eu nunca mais veria minha Aruanda de então, não ouviria a passarada, o bramir dos elefantes, o rugido do leão, minha raça de gigantes que tanto orgulho tivera, jazia despedaçada, nua,fria, acorrentada num infecto porão.

Um ódio intenso o meu peito atormentava, por que Oiá não mandava uma grande tempestade?

Que Xangô com seus raios partisse aquela nave amaldiçoada, que matasse aquela gente, que tão cruel se mostrara, que até minha pobre mãezinha, tão frágil, já tão velhinha, por maldade acorrentara. 

Iemanjá, onde estava que nossa desgraça não via, nossa dor não sentia, o seu peito não sangrava? Seus ouvidos não ouviam a súplica que eu lhe fazia? Se Iemanjá ordenasse, o mar se abriria, as ondas nos envolveriam; ao meu povo ela daria a desejada esperança, e aos que nos escravizavam, a necessária
vingança.

Porém, nada aconteceu, minha mãezinha não resistiu e morreu; seu corpo ao mar foi lançado, o meu povo amedrontado, no mercado foi vendido, uns pra cá, outros pra lá e, como gado, com ferro em brasa marcado.

Onde é que estava Ogum? Que aquela gente não vencia, onde estavam as suas armas, as suas lanças de guerra? Porém, nada acontecia, e a toda parte que se olhava, somente um coisa via... terra.

Terra que sempre exigia mais de nossos corpos suados, de nossos corpos cansados.

Era a senzala, era o tronco, o gato de sete rabos que nos arrancava o couro, era a lida, era a colheita que para nós era estafa, para o senhor era ouro.

Quantas vezes, depois que o sol se escondia, lá no fundo da senzala, com os mais velhos aprendia que no nosso destino no fim não seria sempre assim, quantas vezes me disseram que Zambi olhava por mim.

Bem me lembro uma manhã, que o rancor era grande, vi sair da casa grande a filha do meu patrão. 

Ingênua, desprotegida, meu pensamento voou: eis a hora da vingança, vou matar essa criança,vou vingar a minha gente, e se por isso morrer, sei que vou morrer contente.

E a pequena caminhava alegre, despreocupada, vinha em minha direção. 

Como a fera aguarda a caça, eu esperava ansioso, minha hora era chegada. Eu trazia as mãos suadas, nesse momento odioso,
meu coração disparava, vi o tronco, vi o chicote, vi meu povo sofrendo, apodrecendo, morrendo e nada mais vi então. 

Correndo como um possesso, agarrei-a por um braço e levantei-a do chão.

Porém, para minha surpresa, mal eu ergui a menina, uma serpente ferina, como se ora o próprio vento, fere o espaço, errando, por minha causa, o seu bote foi tão fatal, tudo ocorreu tão de repente,tudo foi de forma tal, que ali parado eu ficara, olhando a serpente que sumia no matagal.

Depois, com a criança em meus braços, olhei meus punhos de aço que a deviam matar... olhei seus lindos olhinhos que insistiam em me fitar. 

Fez-me um gesto de carinho, eu estava emocionado,
não sabia o que falar, não sabia o que pensar.

Meus pensamentos estavam numa grande confusão, vi a corrente, o tronco, as minhas mãos que vingavam, vi o chicote, a serpente errando o bote... senti um aperto no coração, as minhas mãos calejadas pelo machado, pela enxada, minhas mãos não matariam, não haveria vingança, pois meu
Deus não permitira que morresse essa criança.

Assim o tempo passou, de rapaz forte de antes, bem pouca coisa restou, até que um dia chegou e Benedito acabou...

Mas, do outro lado da morte eu encontrei nova vida, mais longa, muito mais forte, mais de amor e de perdão, os sofrimentos de outrora já não importam agora, por que nada foi em vão...

"Fomos mártires nessa vida, desta Umbanda tão querida, religião do coração, da paz, do amor, do perdão".
[CURSO PRESENCIAL] Afoshés Mod I e II
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(11) 3313-5253 - (11) 2089-0327

domingo  17/01  às 10h
Alexandre Yamazaki

*valor: R$ 90,00 (ou 2x R$ 45,00)
 

AFOSHÉS, PÓS DE PROTEÇÃO E ENCANTAMENTO – MÓDULO I E II

O objetivo deste curso é desenvolver técnicas de preparo para pós magísticos, baseados na cultura de nossos antepassados e suas tradições. O uso de pós é uma prática antiga e está inserida nas principais vertentes culturais afro-brasileiras.

Neste workshop, será ensinado como consagrar os pós e as etapas de sua preparação, bem como diversas finalidades de uso. Ministrado por Alexandre Yamazaki, o curso é teórico, prático e ritual e não possui pré-requisitos.

Venha aprender uma forma prática e ritual o manejo de pós.
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