terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

DESCOBERTAS SOBRE O SEJA NOSSA MENTE


HIERARQUIZAÇÃO DA MENTE

Nubor Orlando Facure

A expressão “Sistema Nervoso” é muito adequada para se referir a um conjunto extraordinário de elementos anatômicos que formam o nosso cérebro e toda estrutura subjacente a ele, como o cerebelo, o tronco cerebral, a medula espinhal e os nervos. Nos dias de hoje, compreendemos as funções cerebrais organizadas em módulos, que estão interligados em uma associação, tanto anatômica como funcional, para desempenho destas funções. Esta organização modular permite identificar com clareza os sistemas motores como o piramidal, o extra-piramidal e o periférico, os sistemas sensitivos superficiais e profundos e todo um conjunto de sistemas sensoriais como o visual, o auditivo e o tátil.
Não é nova a idéia de que as funções do sistema nervoso estão organizadas obedecendo a uma disposição hierarquizada, na qual certas funções são ditas superiores e outras, inferiores ou intermediárias. No decurso da evolução, o aparecimento de estruturas mais novas não levou à perda das antigas. As estruturas recém adquiridas passaram a exercer um domínio funcional permanente sobre as mais antigas ou arcaicas. Dizem os especialistas que “é impreciso denominar uma espécie ou um táxon de primitivo ou derivado porque todos os organismos são um mosaico de caracteres primitivos e derivados”. “O caráter primitivo não é inferior ou necessariamente pouco adaptativo, ele é simplesmente o mais antigo”. “Um caráter primitivo ou derivado, que executem a mesma função, só que o derivado realiza de modo mais suficiente, o derivado deverá substituir o caráter primitivo através da competição entre as populações”.
Diversos autores focalizaram a organização hierarquizada tanto para as funções mentais como para as disposições anatômicas e fisiológicas do cérebro. O desenvolvimento da criança com as aquisições de suas aptidões para andar ou falar, são demonstrações eloqüentes desta disposição hierarquizada. Os gestos infantis são de início impregnados de uma atividade puramente instintiva, reflexa e, aos poucos, o aprendizado vai acrescentando uma disposição racional e complexa que passa a controlar e submeter os comportamentos instintivos.

A Hierarquia Motora.

O sistema nervoso nos permite realizar um extenso repertório de gestos motores. O ato de erguer o corpo e trocar os passos para caminhar, estender as mãos para pegar um objeto, gesticular enquanto conversamos, dar um impulso para percorrer as ruas com um patinete, são exemplos de modalidades motoras mais ou menos sofisticadas.
Podemos distinguir nesta atividade três níveis de complexidade: a atividade motora reflexa, a automática e a voluntária, que vamos exemplificar a seguir:
Os reflexos motores são respostas que o sistema nervoso dá utilizando-se de músculos que foram estimulados a partir de um circuito com a via sensitiva. Os músculos palpebrais, por exemplo, se contraem numa piscadela quando um estímulo sensitivo, provocado por um cisco, nos toca a córnea.
Todo mundo reconhece o reflexo patelar quando o neurologista percute seu tendão no joelho, provocando uma extensão rápida da perna. Nós temos exemplos de reflexos muito simples como o de tossir quando uma casca de pão nos atinge a traquéia e reflexos de integração mais complexa, envolvendo vários circuitos neuronais, como o de rodar a cabeça e os olhos quando um estampido de fogos de artifício nos chama a atenção.
A atividade automática pode ser visível no decorrer da marcha quando vamos trocando os passos sucessivamente sem nos apercebermos. O ato de mastigar, deglutir, gesticular durante uma conversa, são todos atos automáticos que executamos, quase sempre sem perceber, no decorrer de toda nossa vida. Alguns automatismos são mais complexos e exigem um aprendizado prévio como, por exemplo, a capacidade para nadar, andar de bicicleta, dirigir um automóvel, ou dedilhar um piano com agilidade.
O ato voluntário é a atividade motora mais típica. Ele se realiza às custas dos neurônios gigantes ( células de Betzs) distribuídos no giro central ( motor) do lobo frontal e se expressa a partir da iniciativa do indivíduo, caracterizando-se por uma determinada intencionalidade. O gesto voluntário, quase sempre, revela um propósito ou um simbolismo, implícito no gesto.
O animal que ergue o seu corpo e começa a andar, tomou iniciativas voluntárias. A criança que joga uma pedra, que abre as páginas de uma revista, que corta um pedaço de bolo ou que espeta um coleguinha com o lápis, está revelando o uso do seu desempenho motor voluntário.]

Hughlings Jackson. Uma Visão Neurológica.

H. Jackson (1835-1911) nasceu na Inglaterra e trabalhou como neurologista no famoso National Hospital Queen’Square em Londres. Seu espírito de observação clínica foi tão extraordinário que nos faz pensar que ele nasceu muito adiante dos homens do seu século. Ele publicou cerca de 300 trabalhos expondo conceitos neurológicos precisos numa época em que nem o neurônio e nem a atividade elétrica cerebral eram conhecidos
Jackson, descreveu uma forma clínica de crise epiléptica focal na qual ocorre uma seqüência de contrações motoras que se iniciam na mão, sobe pelo braço, atinge a face e se propaga por toda uma metade do corpo. Nesta crise, hoje chamada de Jacksoniana, não ocorre a perda da consciência. Suas observações minuciosas foram feitas assistindo sua mulher que era portadora deste tipo de epilepsia. As crises têm origem a partir da região motora do lobo frontal e isto pode ser comprovado pelo próprio Jackson quando a sua esposa faleceu.
Analisando as manifestações clínicas de pacientes portadores de lesões nas regiões motoras do cérebro e de suas vias que se estendem pelo tronco cerebral até atingirem a medula espinhal, Jackson, elaborou o conceito de hierarquização da atividade motora. Ele afirmava que a lesão num determinado nível produziria a liberação das expressões motoras nos níveis abaixo da lesão. Consequentemente, uma lesão no cérebro, na região motora, levava a uma paralisia voluntária nos membros do lado oposto e, em contra partida, toda a atividade reflexa se exacerbava nestes membros paralisados. É a “exaltação dos reflexos”, que se comprova facilmente no exame neurológico destes pacientes.
Esta proposição de Jackson, em que ele sugere uma hierarquização funcional no sistema nervoso, é evidente quando se analisa a atividade motora voluntária, executada pelo sistema piramidal, a atividade automática, processada no sistema extra-piramidal e a reflexa que se expressa no sistema periférico.
Os reflexos musculares integrados a nível periférico, ficam liberados, o que quer dizer, exaltados, quando ocorre uma lesão que afeta as estruturas superiores dos sistemas piramidal e extra-piramidal.
O final de século vivido por Jackson, ainda mantinha viva uma sociedade organizada numa distribuição de poderes entre a nobreza e as demais forças políticas, refletindo, naturalmente, numa população carente de segurança e conforto para suas vidas.
Ocorrendo uma perturbação que desequilibrava essas forças políticas, as classes inferiores, se exaltavam, pondo à mostras suas maiores reivindicações. Este quadro social inspirou Jackson quando elaborou os princípios da disposição hierarquizada do sistema nervoso e o fenômeno da “liberação piramidal”.
Jackson via a organização hierárquica do sistema nervoso, expressa muito claramente nos três níveis da atividade motora: a voluntária, a automática e a reflexa. As lesões num dos níveis superiores produziam sua paralisia e facilitava a liberação das atividades inferiores exaltando os reflexos.

A Expansão Anatômica.

Desde o aparecimento das primeiras formas animais até o desenvolvimento do cérebro humano, o mesmo neurônio tem sido empregado como meio de contato e comunicação com o meio externo e, da mesma forma, na organização da integridade e do equilíbrio do indivíduo com seu meio interno.
Estudando os vegetais, podemos confirmar, facilmente, uma certa “sensibilidade” de natureza química. Com o aparecimento dos animais, no decurso da evolução, podemos constatar que a partir dos cnidários ( água-viva, corais e anêmonas) uma determinada célula ( o neurônio) se especializou para receber informações do meio ambiente e provocar uma reação a este estímulo.
As reações químicas, foram os primeiros meios de contato entre estas células e o exterior e, só quando o neurônio organizou suas primeiras ramificações, foi possível o aparecimento de uma corrente elétrica baseada na despolarização. Criou-se uma troca de cargas iônicas em relação a membrana dos neurônios, pela qual, o sódio e o potássio fazem correr uma corrente elétrica de uma ponto ao outro do neurônio.

No início, a corrente iônica seguia uma trajetória de mão dupla para, posteriormente, esta corrente passar a ser uni-direcional, levando o estímulo do interior do corpo celular para as extremidades das fibras.
A corrente elétrica serviu para dar rapidez e direção ao estímulo nervoso, mas ela não excluiu a comunicação química que foi preservada ao nível das sinapses, nas extremidades dos neurônios. As substâncias químicas continuaram servindo para difundir e modular a estimulação nervosa. Os neurotransmissores que povoam as fendas sinápticas confirmam a importância das reações químicas nos processos de comunicação entre as células.
Seriam inúmeros os exemplos que poderíamos dar comprovando que aqueles primeiros estímulos químicos, que afetavam as células dos animais unicelulares do passado remoto, persistem até hoje, em praticamente toda fisiologia de comunicação celular, nas mais variadas espécies de animais e até mesmo dentro de órgãos com a enorme complexidade dos seres humanos. O gosto que nos estimula a ponta da língua denuncia esta química que persiste em nós até hoje. A planta que se vê agredida pela lagarta que devora suas folhas, libera substâncias venenosas que serão incorporadas ao corpo das borboletas, que as utiliza para repelir predadores. O feromônio liberado por libélulas permite ao macho que localize uma fêmea pela presença de uma única molécula deste feromônio diluída em milhares de litros de ar. A cocaína é capaz de provocar uma reação cerebral violenta cinco segundo depois de ser injetada na veia. Os gatinhos que minha esposa gosta de pegar no colo, esfregam o nariz no seu rosto como se a estivessem acariciando. São glândulas que eles tem na face que marcam com seu cheiro o contato entre os dois.

A Rede de Neurônios.

As células nervosas cresceram de maneira dispersa no corpo dos primeiros animais. Com o desenvolvimento progressivo e a especialização de determinadas áreas, os neurônios passaram a obedecer a uma sistemática de distribuição. Foi preciso criar neurônios para a visão, para o tato e para a locomoção. Como era necessário receber os estímulos do exterior e organizar as respostas mais adequadas, um grupo de neurônios se destacava da superfície externa e se agrupava formando os primeiros “gânglios”. Dá-se início ao processo de “cefalização”. Esta centralização do sistema nervoso e o desenvolvimento dos órgãos receptores na região anterior do corpo ( a cabeça) estão principalmente relacionados com a locomoção e a bilateralidade (distribuição bilateral e simétrica dos vários órgãos do animal).
Sendo a boca do animal um dos órgãos de maior contato com o exterior e desempenhando uma atividade intensa para recolher e absorver os alimentos, um número maior de “gânglios” se organizou nas proximidades do segmento cefálico do animal, principalmente em volta da boca. Com a expansão do esôfago e de todo tubo digestivo, ocorreu um deslocamento dos gânglios cefálicos para a parte dorsal do animal. Ficavam assim, constituídos, os primeiros gânglios que dariam início ao aparecimento do proto-cérebro e toda cadeia ganglionar que formaria o cerebelo, o tronco cerebral e a espinha.
Na minhoca, por exemplo, podemos ver claramente essa organização que concentra gânglios dorsais no segmento cefálico e distribui gânglios menores pelos anéis no corpo do animal, ao longo de cordões nervosos ventrais. Mesmo se cortarmos seus gânglios cefálicos, a minhoca continuará se movimentando às custas da cadeia ganglionar de cada um dos seus segmentos anelares, mas, se tornará lenta e com dificuldade para escavar a terra.
A necessidade de manter um equilíbrio perfeito, desenvolveu de forma exuberante o cerebelo, principalmente nas aves que tem de usar as asas para voar e nos peixes que tem que se deslocar com as nadadeiras. A cobra que apenas se arrasta tem um cerebelo rudimentar. Os anfíbios, a lampreia e o peixe bruxa, também tem um cerebelo de pequena expressão.
No bagre e outros peixes é bem desenvolvido o bulbo ( medula oblonga), por terem concentrados, nesta região, os neurônios relacionados com os corpúsculos gustativos que os bagres tem distribuídos por todo seu corpo. A partir dos mamíferos, estes corpúsculos passam a se localizar apenas na língua ocorrendo uma redução no tamanho do bulbo permitindo a expansão do cerebelo.
A região olfatória desenvolveu o rinencéfalo na base do lobo frontal. A codificação dos odores, foi fundamental para o animal poder localizar seu alimento, sua parceira ou seus inimigos. Em mamíferos de vida aquática como os golfinhos, as áreas relacionadas com o olfato se atrofiaram e, no homem, elas perderam importância para áreas sensoriais de maior utilização como a visual e a auditiva.

Os tálamos ópticos são exuberantes nos animais de vida noturna.

A pineal é muito grande no pingüim, na ema, no leão marinho e nas focas. Ela é saliente e exteriorizada para fora do crânio em alguns tipos de lagartos. É pequena em corujas, gambás, musaranho e morcegos, ao passo que não existe no crocodilo, no peixe-bruxa, no tatu, nas preguiças e no tamanduá.
O sistema límbico, que hoje se relaciona com o cérebro emocional, começou a se expandir nos “mamíferos inferiores” ( expressão imprópria usada por Mac Lean, que vamos comentar mais adiante).
O neo-cortex corresponde às últimas aquisições do sistema nervoso. Ele se organizou formando as grandes circunvoluções do manto cerebral que é muito expressivo no chimpanzé e ganha dimensão extraordinária no cérebro humano.
Os neurônios primitivos tinham um número limitado de dendritos mas, a medida que a atividade do animal se sofisticava, a arborização destes contatos se multiplicava. Hoje se aceita que cada neurônio no cérebro humano estabelece de cinco a dez mil ligações com dendritos de células vizinhas. Há uma relação direta entre o número de neurônios e a capacidade funcional apresentada pelo animal. Um molusco como a Aplísia tem de 20 à 100 mil neurônios, a Drosófila, apesar do seu diminuto tamanho, tem cerca de 300 mil neurônios, que lhe permite andar sobre uma banana, depois de enxergá-la, detectá-la pelo cheiro e sobrevoar seus arredores e ainda fazer a corte do acasalamento. O polvo é entre os invertebrados o que tem maior número de neurônios - chegam a 170 milhões- o que lhes permite aprender a executar determinadas tarefas organizadas. Ainda não existe experimentos que consigam demonstrar que a Drosófila é capaz de aprender uma atividade nova, criada em laboratório.
Nada é , porém, mais extraordinário que os 16 bilhões de neurônios do cérebro humano. Eles se localizam com precisão em cada ponto a que se destinam na intricada rede da fisiologia cerebral. Além de um determinismo genético, existem fatores neurotróficos que com seus atrativos químicos conduzem cada neurônio para seu lugar. A medida que a criança vai sendo estimulada após o nascimento, os neurônios vão reorganizando as ligações sinápticas, fazendo despencarem milhões de ligações que não são utilizadas e reforçando outras tantas que aos milhões, também, se estabelecem com o novo aprendizado. Existem evidências experimentais que comprovam que as redes neurais são programadas geneticamente em seus módulos fundamentais e reforçadas pela experiência com que a atividade cerebral for empenhada. Quanto mais estímulos for oferecido, maior será a diversificação e o reforço das sinapses.

Os Módulos Funcionais
Ao nível do córtex cerebral podemos identificar áreas relacionadas com a atividade motora, com as percepções sensitivas, com a linguagem falada, com a compreensão da palavra, com a percepção visual, com a organização de programas motores complexos que nos permitem, por exemplo, vestir e abotoar a camisa ou retirar um cigarro, acendê-lo na boca e soprar uma baforada de fumaça no ar.
O estudo destas atividades cerebrais de nível superior iniciou-se após a apresentação histórica de Paul Broca que, em 1861, demonstrou que uma lesão na região frontal inferior esquerda era responsável pela perda da expressão da fala. A partir daí, a idéia localizacionista para as funções cerebrais caminhou rapidamente, descobrindo as relações funcionais com as diversas áreas do córtex cerebral.
Esta visão segmentar pela qual cada função teria uma região cerebral para executá-la, foi substituída por uma interpretação integracionista pela qual as funções estariam distribuídas em módulos que se interpenetram e associam.

Aleksandr Romanovich Luria. Uma visão neuropsicológica.

Luria (1903-1978) é considerado por alguns como o expoente máximo da neuropsicologia do século passado. Ele estudou pacientes com perda da linguagem por trauma craniano provocado por ferimentos de guerra. Ao invés de considerar o cérebro como uma entidade única, postulava que o cérebro em funcionamento era na verdade “um sistema funcional complexo”, que abrange diferentes níveis e diferentes componentes, cada um dos quais oferecendo a sua contribuição própria para a estrutura final da atividade mental.
Na interpretação de Luria, “os processos mentais humanos são sistemas funcionais complexos e não estão “localizados” em estreitas e circunscritas áreas do cérebro, mas ocorrem por meio da participação de grupos de estruturas cerebrais operando em concerto, cada uma das quais concorre com a sua própria contribuição particular para a organização desse sistema funcional”. Resulta deste pensamento que “uma questão essencial deve ser descobrir as unidades funcionais básicas de que é composto o cérebro humano e o papel desempenhado por elas em formas complexas de atividade mental".
Luria sugeriu que “há bases sólidas para se discernir as três unidades cerebrais funcionais, cuja participação se torna necessária para qualquer tipo de atividade mental”. Ele considerou estas três unidades funcionais:
1 – Unidade para regular o tônus, a vigília e os estados mentais.
2 - Unidade para receber, analisar e armazenar informações.
3 - Unidade para programar, regular e verificar a atividade.
Cada uma dessas unidades básicas exibe ela própria uma “estrutura hierarquizada” que consiste no envolvimento de pelo menos três zonas cerebrais construídas umas acima da outra. Seriam as áreas primárias (de projeção) que recebem impulsos da periferia ou os enviam para ela; as secundárias (de projeção – associação), onde informações que chegam são processadas, e, finalmente, as zonas terciárias (zonas de superposição) constituídas pelos últimos sistemas dos hemisférios cerebrais a se desenvolverem sendo responsáveis, no homem, pelas formas mais complexas de atividade mental requerendo a participação em concerto de muitas áreas corticais.

A Evolução do Cérebro.

Os neurônios são constituídos de um corpo celular e prolongamentos que se arborizam estabelecendo relações uns com os outros e que no cérebro humano se contam aos bilhões.
Chamam-se dendritos, os prolongamentos que trazem impulsos em direção ao corpo celular e axônio, um prolongamento geralmente extenso que leva o impulso elétrico a partir do corpo celular para a sua extremidade sináptica.
Aos poucos, os neurônios se especializaram em dois grupos. Os sensitivos, trazendo informações sobre o que registravam no ambiente exterior e os motores, que processavam a resposta adequada de aproximação ou retirada em relação ao estímulo percebido.
Não apresentam sistema nervoso: os protozoários e as esponjas, embora suas células demonstrem claramente sua capacidade de reagir a estímulos externos com movimentação de cílios. Os Cnidários ( corais, anêmonas, água- viva) apresentam um sistema nervoso disperso formando uma rede difusa, o que está relacionado com o fato destes animais possuírem simetria radial. Os Cnidários apresentam sinapses polarizada, onde os impulsos caminham em qualquer direção porque os dois lados dos seus processos neuronais podem liberar neurotransmissores.
O aprendizado obrigou o sistema nervoso a acumular experiência e centralizar as decisões. O tipo mais primitivo de sistema nervoso centralizado pode ter sido semelhante ao que vemos hoje nos vermes achatados de vida livre como as planárias.
A atividade dos membros e da boca que recebia o alimento e o preparava para a deglutição forçou a concentração de neurônios em volta da região bucal dando início à encefalização.
Em animais com simetria radial como a anêmona do mar ou a estrela do mar, a distribuição dos neurônios acompanha a circunferência da forma do animal de maneira simétrica e quase sempre concêntrica, a partir do anel oral central (em volta da boca).
Nos anelídeos, como a minhoca, os gânglios nervosos se distribuem numa repetição sistemática em cada segmento do animal. Mesmo assim, é possível se observar uma concentração cefálica de um grupo maior de gânglios.
O aparecimento de membros, como os que são vistos no caranguejo, forçou, também, a lateralização das funções. Os gânglios nervosos já estavam seguindo uma distribuição simétrica na região dorsal do animal, forçados pelo desenvolvimento do tubo esofágico que dificultava seu crescimento na região ventral. Com o surgimento dos crustáceos, a presença de membros à esquerda e a direita do animal, construiu uma distribuição lateralizada dos neurônios, com uma forte tendência ao cruzamento das fibras, fazendo com que as projeções celulares de um lado se ocupassem com as funções executadas no hemicorpo do lado oposto. Esta lateralização é facilmente constatada no cérebro humano onde se nota que a mão direita é movimentada pelos neurônios motores do hemisfério esquerdo e a linguagem falada se situou marcadamente no lado esquerdo do cérebro.
A estrutura primitiva dos gânglios, distribuídos ao longo da cadeia de anéis do verme que se arrastava no chão, sofreu expansão com os gânglios que se aglomeraram na extremidade cefálica do animal. O aparecimento dos neurônios sensíveis à luz desenvolveu a visão criando os tálamos ópticos e o córtex visual. O contato social desenvolveu as relações entre os indivíduos despertando o aparecimento do sistema límbico, depósito anatômico da atividade emocional. As experiências com as mãos expandiram a área motora e, a gigantesca atividade gestual ligada ao aprendizado, projetou para frente os lobos frontais, acrescentando ao animal, a capacidade para raciocinar e desenvolver a inteligência.

Os Três Cérebros de Mac Lean. Uma Visão Biológica.

A visão de Paul D. Mac Lean é fundamentada nas aquisições produzidas pela evolução. Ele descreveu três andares de atividades para o cérebro. No primeiro, seriam desenvolvidas as atividades basais ligadas a sobrevivência como o controle da respiração, do batimento cardíaco e de toda atividade visceral. É aqui que nascem os comportamentos de agressão e de comportamento repetitivo, automatizado. Este tipo de comportamento esboça as primeiras reações de ritualização, através do qual o animal visa marcar posições hierárquicas no seu grupo e estabelecer seu próprio espaço no seu ambiente ecológico, demarcando seu território. Aqui acontecem as reações instintivas dos arcos reflexos e os comandos que possibilitam algumas ações involuntárias indispensáveis à preservação da vida. Anatomicamente corresponde às estruturas do tronco cerebral - o bulbo, a ponte e o mesencéfalo - , do cerebelo, do globo pálido, que é o nosso gânglio da base mais antigo e dos bulbos olfatórios. Este cérebro primitivo seria para Mac Lean o equivalente ao cérebro reptiliano. O aparecimento dos bulbos olfativo e a subsequente organização do córtex do rinencéfalo com quem está conectado, possibilitou uma análise precisa dos estímulos olfativos e o aprimoramento das respostas orientadas por estes odores, facilitando a aproximação, o ataque, a fuga ou o acasalamento.
O segundo andar na divisão de Mac Lean, corresponde ao cérebro dos “mamíferos inferiores” ( monotremados e placentários) como o ornitorrinco e o gambá . Nesses animais se desenvolveu o cérebro emocional ou cérebro intermediário (o páleopálio formado pelas estruturas límbicas) onde se localizam funções de interação social entre os animais. Este sistema permite ao animal escolher entre o que lhe agrada ou desagrada. Aqui se desabrocham os comportamentos afetivos como o que induz as fêmeas a cuidarem atentamente de suas crias. Aparecem os comportamentos lúdicos, principalmente entre os filhotes, que passam o tempo brincando e lutando entre si. As situações emocionais vividas pelo animal já conseguem revelar sentimentos que não aparecia nos repteis. O cérebro límbico permite aos mamíferos expressarem medo, pavor, ira, afeição, tristeza e alegria.
Finalmente, o terceiro andar, foi desenvolvido a partir dos “mamíferos superiores” (placentários) até aos primatas. É formado pelas últimas aquisições do córtex cerebral - o neocórtex - onde se processam funções cerebrais superiores ou racionais como, por exemplo, a linguagem.
Mac Lean, interpreta estes três cérebros como computadores biológicos que trabalham interconectados entre si, mantendo, porem, suas peculiaridades próprias de inteligência, subjetividade, sentido de tempo e espaço, memória, motricidade e outras funções menos específicas. No decurso da evolução, parte das primitivas funções foram sendo substituídas ou minimizadas. O sistema olfativo, de extrema importância no cérebro reptiliano, ficou muito reduzido nos humanos, onde este sistema mantém ligações apenas para a amígdala dos lobos temporais e para o córtex entorrinal.
Como podemos perceber, a hierarquia dos três cérebros proposta por Mac Lean, expressa uma subdivisão tanto anatômica como funcional e dinâmica. O que freqüentemente tenho ouvido de minha filha que é bióloga, é que esta separação entre mamíferos superiores ou inferiores, é arbitrária e inconveniente, tendo em vista o que já sabemos hoje sobre o comportamento animal.

A Evolução do Comportamento.

A partir de reflexos simples representando aproximação ou fuga, os animais unicelulares aprenderam a sobreviver diante das hostilidades do ambiente. A medida que os reflexos promoviam um comportamento mais sofisticado, o animal descobria que, pela sua própria atividade, ele podia explorar o ambiente que o cerca, com a vantagem de descobrir outras fontes de alimento.
Um reflexo mais complexo pode ser visto numa lesma do mar - a Aplísia - que quando estimulada, consegue abrir a boca para receber alimento e, quando se vê ameaçada, é capaz de expelir uma tinta avermelhada que escurece o ambiente e lhe permite uma fuga mais segura.
A repetição de reflexos utilitários construiu uma constelação de respostas organizadas para aproximação ou fuga, indispensáveis à sobrevivência do animal. Arquivados no “proto-cérebro”, este repertório de reflexos aprendidos com o tempo, vieram a constituir os instintos e, mais tarde, para cada experiência instintiva bem sucedida, criou-se um conjunto de hábitos que passaram a caracterizar o estilo de vida de cada espécie.
Os hábitos de caça noturnos realizados por certas aves como a coruja ou as incursões dos morcegos que também trabalham à noite, surgiram de necessidades instintivas ligadas a procura do alimento em condições vantajosas e mais seguras em relação às suas presas. As variações climáticas impuseram a certos esquilos a necessidade de armazenar no verão o que vão consumir no inverno. Instintos e hábitos organizaram sociedades hierarquizadas como das abelhas e das formigas.
Os comportamentos instintivos e os hábitos adquiridos com o aprendizado condicionaram, também, as relações de acasalamento. Milhares de experiências para fazer a corte, iam aos poucos sendo fixadas nos genes de todas as espécies. Foi entre os animais que esta parceria sexual assumiu uma diversidade espantosa. É por isso que migram as aves atravessando continentes, sobem, por extensas corredeiras, os gigantescos cardumes de peixes, as baleias percorrem centenas de milhas no mar e os homens escreveram os mais belos romances sobre sua paixão por uma mulher.
Os instintos e os hábitos estabeleceram regras de sobrevivência fazendo os flamingos construírem seus ninhos nas copas de árvores, o João de Barro fortificar sua construção de terra batida e o castor amontoar os galhos que edificam seus diques.

Instintos, Hábitos e Mudanças de Comportamento.

Instintos e hábitos sedimentaram condutas que permitiram a um sem número de espécies sobreviverem por milhares de anos sem grandes mudanças. O rato, a barata e as abelhas desenvolvem os mesmos rituais de alimentação e sobrevivência bem antes do aparecimento do Homem na Terra.
Com as grandes mudança ocorridas no ambiente do nosso planeta, foi necessário prosseguir na evolução por conta de novos métodos de sobrevivência e reprodução. Os instintos e os hábitos, acrescentaram mais complexidade ao cérebro. Foi acumulando neurônios ao nível dos “núcleos da base”, na intimidade do cérebro, que, espécies mais diferenciadas, fazerem aprendizados cada vez mais exigentes. Um gesto novo aprendido, sedimentava um ritual motor que se automatizava em um novo comportamento. O próprio meio ambiente forçou inúmeras mudanças de hábitos e este aprendizado acrescentou automatismos cada vez mais complexos.
As mudanças climáticas na Terra mudaram a vegetação e os nossos ancestrais que viviam no topo das árvores, comendo folhas e frutos, foram obrigados a descer. Pisando a terra, retirando as mãos do chão, erguendo a cabeça e se sustentando com os dois pés, se viram obrigados a caminhar longas distâncias em busca de alimento, correndo atrás de suas presas e erguendo as mãos para atirar pedras. Foram assim que aprenderam a construir seus primeiros instrumentos que ampliaram suas estratégias para conseguirem mais sucesso em suas disputas pela caça ou pela parceira. Esta foi a trajetória dos símios primitivos que desceram das árvores, caminharam pelas savanas, agregaram-se em grupos, desenvolveram os hominídeos, iniciaram a fala com seus grunhidos e transformaram-se no gênero Homo que nos deu origem.
Convém observar que em nenhum momento, os instintos e os hábitos primitivos foram abandonados. Houve apenas uma substituição estratégica e aprimorada dos comportamentos. Qualquer criança revela ainda no reflexo de sucção e de preensão plantar ou palmar que, estes instintos, ainda nos acompanham. No indivíduo adulto eles estão simplesmente sobrepostos por uma atividade mais sofisticada.
Por outro lado, em determinadas situações que a natureza revela, pode ocorrer, com conseqüências desastrosas para o animal, a “persistência” de comportamentos instintivos. Sem correções adequadas, estes hábitos e instintos primitivos podem se revelar fatais para o desenvolvimento da espécie. Isso quer dizer que, animais que até hoje persistem num tipo de vida basicamente instintiva, correm o risco de comprometerem sua sobrevivência exatamente pela falta de flexibilidade que seus instintos impõem.

A Inflexibilidade Robótica dos Instintos.

Uma conduta puramente instintiva está cristalizada no comportamento de várias espécies e elas com freqüência pagam um preço alto por não terem conseguido mudar suas estratégias. São inúmeros os exemplos que a natureza nos fornece para demonstrar a inflexibilidade dos instintos e a catástrofe que sua falta de estratégia para mudanças pode desencadear.
As tartaruguinhas que despontam nas areias da praia no raiar da madrugada, precisam das luzes das estrelas mais baixas no horizonte para, instintivamente, se dirigirem até as águas do mar, onde vão dar seqüência ao seu ciclo de vida. O mundo moderno, encostando as cidades com suas luzes na beira da praia, faz com que estas tartarugas se confundam e, ao invés de se orientarem pelas estrelas que brilham no horizonte longínquo, se atraem pelas luzes da cidade com suas armadilhas fatais.
As mariposas de hábitos noturnos saem dos seus abrigos nas noites enluaradas e se orientam pela luz do luar para conduzirem seu vôo. A luz acesa nos postes de rua as atraem com mais força que o luar e, sob o efeito desta luz artificial, elas perdem, por completo, seu sistema de orientação, vindo a se destruírem aos montes nos pratos das lâmpadas.
Os mesmos peixes que vemos correndo no mar atrás de cardumes que os alimentam, mordem a isca de metal feita pelo pescador que cria a imagem de uma presa reluzente, que esconde o anzol que condena o peixe à morte.
As abelhas se atraem em direção ao pólen e não conseguem desviar de um punhadinho de milho triturado que jogamos no chão. Elas ali permanecem perdendo tempo, enganadas pela semelhança que a quirela tem com o pólen.
Os marrecos se iludem com os apitos do caçador que lhes dá o tiro fatal.
A formiga leva para casa o grãozinho que depois evapora o veneno que destroi sua família.
A gansa choca junto com os seus ovos uma bola de bilhar, de cor branca, que colocamos em seu ninho.
As libélulas, com freqüência, perdem seus ovos no capô de um carro que brilha, confundindo-as com o reflexo das lagoas.
Certa ocasião aproveitamos de uma galinha que chocava os seus ovos e, misturamos entre eles, um ovo de uma marreca do nosso quintal. Quando nasceram, tanto os pintainhos como o marrequinho, acompanhavam a galinha com os mesmos cuidados e apego. Certo dia joguei de propósito o marrequinho nas águas do tanque onde seus verdadeiros pais nadavam A nossa galinha entrou em desespero. Corria de um lado par o outro sem se aperceber que, instintivamente, este seu falso filhote nadava com absoluta segurança,
Por esses exemplos, estamos percebendo que o instinto que protege, que garante a reprodução ou facilita o alimento, pode significar um desastre as vezes fatal para o animal.

As Funções Superiores e o Psiquismo.

O olhar de um falcão, a orientação espacial de um pombo e a audição de um cachorro tem precisão muitas vezes mais apuradas que os mesmos sentidos no Homem. Não foram, porém, a agudez das aptidões sensoriais que fizeram o diferencial entre as espécies, foi a capacidade de aprimorar estratégias que facilitou o desenvolvimento da inteligência nos animais.
O chimpanzé consegue se utilizar de uma pedra para quebrar castanha e usa um pedaço de um galho qualquer para espetar o cupinzeiro de onde saem apressadas as suas presas.
Um bando de raposas no Ártico se dispersa quando percebe que o solo gelado está frágil, podendo provocar sua queda na água gelada.
Numa espécie de esquilo, um dos seus membros distrai a atenção de uma cobra, enquanto os seus companheiros conseguem se esconderem numa toca que os protege.
Alguns roedores, que vivem em bandos, escalam um dos seus membros para exercer o papel de vigia do grupo, se expondo, propositadamente, ao ataque de gaviões. Esta estratégia altruística, garante a alimentação ou a fuga do restante do grupo.
Alguns morcegos passam várias noites sem conseguir sugar sangue de suas vítimas. Um de seus companheiros que habita a mesma gruta, permite que este esfomeado se aproveite de alguns bocados de sangue, que ele expele pela boca.
Os cimpanzés se organizam ardilosamente em volta de um grupo rival para caçar os mais frágeis.
A capacidade de se reunir em uma sociedade organizada é surpreendente entra as abelhas, as formigas e um bando de gorilas.
A evolução testou e acumulou todas estas experiências que desenvolveram os automatismos complexos, o discernimento, o raciocínio e a inteligência.
A inteligência humana e particularmente seu julgamento, sua ética e sua moral, são insuperáveis entre as espécies que povoam nosso planeta. Nem por isto podemos deixar de reconhecer o esforço extraordinário que sustenta a chama da sobrevivência e da reprodução, em todas espécies vivas que comungam conosco o mesmo espaço.
O cérebro de que hoje dispõe a criatura humana para sua caminhada terrena, é fruto deste esforço que a vida fez a nosso favor.
É surpreendente que o cérebro do selvagem mais primitivo já dispõe de uma estrutura anatômica que lhe permita aprender a complexidade de um texto musical da atualidade.
O chimpanzé que está mais próximo de nós em termos evolutivos, tem um cérebro de pouco mais de 300 gramas, bem inferior quando comparado com o nosso cérebro que pesa quase um quilo e meio. Este mesmo chimpanzé, por outro lado, tem 99 % de seus genes iguais aos nossos. Isto revela a importância do aprendizado e da experiência a que se submeteu a espécie humana, quando se viu forçada a conviver com um ambiente mais diversificado que o do chimpanzé.
Um chimpanzé treinado será capaz de identificar objetos indicados pela palavra falada, mas não será capaz de compreender metáforas, nem apreender uma frase com três indicações. Quando eu falo do chifre da vaca que o fazendeiro usa, há dois sentidos que um chimpanzé jamais conseguirá se dar conta.
Há uma grande diferença no tamanho do cérebro de um homem atual e seus antepassados históricos, desde os Australopithecus até ao Homo erectus. Possivelmente existiram espécies intermediárias que conviveram no mesmo espaço físico e temporal facilitando esta diferenciação. Pode ser o caso do Homem de Neandertal que tinha um crânio maior que o do homem atual, mas, que desapareceu no decurso do tempo.

Nas Profundezas da Mente.

Estudando o comportamento dos animais, podemos perceber em diferentes espécies, que as mais variadas tonalidades da personalidade humana são todas, de alguma forma, reconhecidas entre as outras espécies de animais. Seriam, inesgotáveis os exemplos que a vida animal nos oferece para estudo. Cada um que cria um animalzinho em casa sabe que o gato tem ciúmes, o cachorro tem suas preferências e suas antipatias e os pássaros de cativeiro são extremamente sensíveis a variações nas suas rotinas.
No reino animal podemos testemunhar a agressividade, o altruísmo, a monogamia, a infidelidade, a farsa, o roubo, o engodo e a sedução. São todas estas, situações que o ser humano apenas ampliou e diversificou.
O grande diferencial entre nós e as outras espécies animais situa-se na nossa ética, na nossa moral, no nosso livre arbítrio, no nosso julgamento e, de uma maneira mais marcante, podemos afirmar que a verdadeira superioridade reside em nossa consciência.
A consciência do ponto de vista restrito da neurologia, se refere, mais especificamente, ao estado de alerta. De uma maneira mais abrangente, a sua definição implica na noção do Eu e de suas responsabilidade éticas e morais.
Os filósofos já nos sugeriram conhecermos a nós mesmos na busca da verdade socrática. Isto implicaria em esmiuçarmos os escaninhos mais profundos do nosso espírito sem ter certeza de quanto extensa seria esta revelação. É pouco provável que este Eu que nós somos se manifeste sem restrições ou disfarces se expondo abertamente no campo iluminado da consciência.

Sigismund Freud. Uma Visão Psicodinâmica.


Freud (1886-1939) introduziu o método psicanalítico para o estudo da mente humana. Ele construiu com as suas interpretações um edifício de três andares para nosso aparelho psíquico. O ID, o EGO e o SUPER-EGO.
O ID é totalmente inconsciente e não se revela abertamente. Podemos ter acesso a ele por processos de interpretações, ditas psicanalíticas, para os sonhos, para os atos falhos e no decurso das livres associações. O inconsciente contém os nossos desejos que a consciência censura, rejeita e impede que se manifeste
O EGO está ligado à nossa consciência, ele é, também, parcialmente inconsciente, num nível dito pré-consciente.
O SUPER-EGO é predominantemente consciente e parcialmente inconsciente. Ele exerce um papel de sensor moral do EGO.

A Visão Espírita para a Mente.

Uma definição neurológica do Século XIX dizia que “o cérebro é o órgão de inserção do Espírito nas coisas”. Após a adoção do paradigma materialista que passou a dominar a Medicina e toda Ciência, o Espírito foi banido da fisiologia cerebral.
A visão filosófica de René Descartes estabelecia dois domínios de existência. As coisas físicas – a rés extensa - e o Espírito – rés cogitans - , responsável pelos nossos pensamentos e as nossas paixões. Esta visão dualista foi aos poucos sendo rejeitada a medida em que a Ciência descobria a fisiologia celular e a intimidade das trocas metabólicas que mantinham a vitalidade do organismo.
Nos dias de hoje, a neurobiologia tem procurado materializar no próprio cérebro toda atividade mental. Tanto nossos pensamentos como nossas emoções seriam expressões de trocas químicas entre os neurônios.
A neuropsicologia, instrumentada pelos recursos da Ressonância Magnética e da Tomografia com Pósitrons, tem conseguido sucesso na localização de funções tão sutis como a nossa capacidade de identificar e nomear as cores.
Acontece, porém, que se fizermos um estudo mais profundo sobre as aptidões humanas veremos que determinadas capacidades fogem ao alcance da fisiologia cerebral conhecida. Podemos citar como exemplo a visão à distância e a xenoglossia.
A Doutrina Espirita codificada em 1867 por Allan Kardec revela uma série de conhecimentos sobre nossa natureza espiritual que vale apenas resumirmos no contexto deste estudo sobre a mente.
Dizem os Espíritos que nosso corpo e o nosso cérebro em particular, é apenas um instrumento de que se serve o Espírito para se manifestar no ambiente físico onde estamos vivendo.
O cérebro humano tem as limitações próprias da matéria grosseira de que é feito e isto traz consequentemente um obstáculo à plena manifestação do Espírito.
Na atual encarnação cada um de nós é apenas aquilo que o nosso cérebro nos permite expressar.
O Espírito, para atuar no corpo físico, se reveste de um perispírito ou corpo espiritual, que guarda estreita semelhança com a aparência do corpo físico, mas sem as suas limitações. Assim é que, o cérebro do corpo espiritual, armazena as memórias de todas as encarnações que já tivemos. Cada um de nós, em função destas reencarnações, já desfrutou diversas situações de vida, o que, de alguma forma, nos faz acumular características de personalidades muito variadas. Já transitamos na Terra, como homem ou mulher, rico ou pobre, culto ou simplório em outras ocasiões.
Em cada nova encarnação o nosso cérebro físico é estruturado à custas do patrimônio genético que nos é destinado e pela influência das vibrações do corpo espiritual, que conforme nossas necessidades e méritos, modifica a leitura do nosso abecedário genético.
O perispírito estabelece uma sintonia ao nível molecular com o nosso cérebro físico, principalmente nos chacras coronário e frontal. Ele não se detém preso e limitado ao campo de ação do corpo físico. O perispírito pode se emancipar do corpo, com maior ou menor facilidade, navegando nas dimensões espirituais de onde procede. Este desprendimento nos permite ter revelações mais ou menos completas, mais ou menos fidedignas do ambiente espiritual que nos cerca.

André Luiz. Uma Proposta de três Andares para o Cérebro.

Nos primeiros capítulos do livro “No Mundo Maior” André Luiz (psicografia de Chico Xavier), nos transmite uma análise do cérebro nos moldes da segmentação que foram apresentadas pelos autores que estamos revendo.
Além de destacar os três andares de atividade cerebral, apresentando uma divisão tanto anatômica como funcional, André Luiz, nos chama a atenção para a possibilidade do indivíduo estacionar evolutivamente em um destes níveis, comprometendo seu progresso espiritual.
A partir de um quadro de obsessão, o instrutor Calderaro mostra à André Luiz as áreas de atividade cerebral que ele coloca em três níveis.
No polo frontal, estão sediadas as nossas atividades ligadas ao “ideal e a meta superior” a que estamos destinados a atingir. Ele se relaciona com nosso futuro espiritual. É a “casa das noções superiores”. Tem correspondência com a dinâmica do superconsciente. Para André Luiz, o polo frontal ainda se mostra silencioso para as investigações da Ciência atual. Nele “jazem materiais de ordem sublime, que conquistaremos gradualmente, no esforço de ascensão, representando a parte mais nobre de nosso organismo divino em evolução”.
Num andar intermediário estão as regiões motoras do lobo frontal. O córtex motor dos lobos frontais se relacionam com nossa atividade voluntária, que se referem ao momento presente. Esta função corresponderia ao plano consciente da terminologia freudiana. Aqui está o “domínio das nossas conquistas atuais”, esta área corresponde ao nosso “esforço e vontade”.
Nos andares inferiores, representados pelo “sistema nervoso” em geral, estão situados os nossos hábitos e nossa atividade instintiva. É “a residência dos nossos impulsos automáticos”.
No enredo do quadro descrito como pano de fundo, nos primeiros capítulos do “Mundo Maior”, um dos personagens comete um crime, matando seu patrão e se apoderando de suas propriedades. Perturbado pela vítima que o persegue vida à fora, o réu nunca se livrou dos sentimentos de culpa e tenta se compensar pela dedicação excessiva ao trabalho, tornando-se um vitorioso nos negócios de sua firma. Todo seu esforço foi centralizado no rumo que dava à sua vida para ter sucesso nos negócios.
André Luiz, então, nos chama a atenção para esta estagnação em um dos níveis da atividade cerebral.
No polo frontal significa estagiar exclusivamente na atividade contemplativa, em que os ideais nobres são supervalorizados, o que nos cristaliza por significar, muitas vezes, uma vida sem produtividade.
No córtex motor, a fixação obsessiva pelo trabalho, nos impede de subir aos setores mais elevados da espiritualidade.
E uma vida automatizada, sem idéias e sem uma atividade produtiva nos estaciona nos instinto e hábitos animalescos.
Já apontamos no decurso das nossas ilustrações que, o instinto, mesmo sendo de importância fundamental para a sobrevivência e a procriação, não dispõe de flexibilidade para nos livrar de situações especiais quando o ambiente estabelece novas regras de relacionamento.
O ser humano apesar das grandes conquistas que a jornada evolutiva lhe proporcionou, ainda se detém de maneira imprudente nos estágios inferiores, fixados em hábitos e comportamentos instintivos ou cristalizados em automatismos.
Numa simples contrariedade no trânsito a maioria de nós se exaspera revelando toda ferocidade com que ainda se relaciona com o próximo.
A violência sexual não tem poupado nem a mulher nem a criança em qualquer latitude da civilização moderna.
A licenciosidade embriagou os jovens de hoje que desconhecem os limites do permissível. Para a maioria deles os valores morais são descartáveis quando evocam seus compromissos com a sociedade.
A ansiedade e o comportamento neurótico tem comprometido a paz até mesmo dentro de casa, fixando mães e filhos nas teias da obsessão.
A corrida atras do dinheiro, do sucesso ou do poder tem afastado pais de família dos compromissos que a educação dos filhos exige.
Divergências religiosas entre povos que acreditam no mesmo Deus tem produzidos mais mortes que todas as guerras.
O ser humano atual iniciou seu processo social ha cerca de 200 mil anos. Do ponto de vista puramente anatômico, o cérebro deste homem primitivo já continha toda estrutura de neurônios que dispomos na atualidade. Isto quer dizer que ele poderia ser educado o suficiente para reconhecer os acordes de uma sinfonia de Bethoven ou os conceitos da física atômica. O que André Luiz nos garante é que no nosso lobo frontal já dispomos de material cerebral adequado para nos elevar a níveis mais altos na espiritualidade.
Devemos aguardar os próximos milênios para que esta elevação seja alcançada.

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Agradecimento: À Kátia Gomes Facure Giaretta (mestre em Biologia pela UNICAMP) pelas sugestões.
Bibliografia
Damásio, A – O mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si - São Paulo – Companhia das Letras 2000
Kandel, E.R. ; Schwartz, J.H. ; Jessel, T.M. – Fundamentos da Neurociência e do comportamento – Rio de Janeiro – Ed. Prentice-Hall do Brasil LTDA 1997
Kapczinski, F. ; Quevedo, J.; Izquierdo, I. – Bases biológicas dos transtornos psiquiátricos – Porto Alegre – Artes Médicas Sul 2000
Lewin, R. – Evolução Humana – São Paulo – Ed. Atheneu 1999
Luria, A R. – Fundamentos de Neuropsicologia – São Paulo – Ed. Da Universidade de São Paulo – 1981
Romero, S.M.B. – Fundamentos de neurofisiologia comparada – Ribeirão Preto – Holos 2000
Searle, J. R. – A redescoberta da mente – São Paulo – Martins Fontes 1997