domingo, 8 de abril de 2018

Prece-Poema de Pai Benedito de Aruanda

   

                Prece-poema a “Pai Benedito de Aruanda”

por Pai Ronaldo Linares


Meu bondoso Preto-Velho!

Aqui estou de joelhos, agradecido contrito, aguardando sua benção.

Quantas vezes com a alma ferida, com o coração irado, com a mente entorpecida pela dor da
injustiça eu clamava por vingança, e Tu, oculto lá no fundo do meu Eu, com bondade compassiva me
sussurravas ESPERANÇA.

Quantas vezes desejei romper com a humanidade, enfrentar o mal com maldade, olho por olho,
dente por dente, e Tu, escondido em minha mente, me dizias simplesmente:

“Sei que fere o coração a maldade e a traição, mas, responder com ofensas, não lhe trará a
solução. Pára, pensa, medita e ofereça-lhe o perdão. Eu também sofri bastante, eu também fui
humilhado, eu também me revoltei, também fui injustiçado.

Das savanas africanas, moço, forte, livre, num instante transformado em escravo acorrentado,
nenhuma oportunidade eu tive. Uma revolta crescente me envolvia intensamente, porque algo me
dizia que eu nunca mais veria minha Aruanda de então, não ouviria a passarada, o bramir dos
elefantes, o rugido do leão, minha raça de gigantes que tanto orgulho tivera, jazia despedaçada, nua,
fria, acorrentada num infecto porão.

Um ódio intenso o meu peito atormentava, por que Oiá não mandava uma grande tempestade?

Que Xangô com seus raios partisse aquela nave amaldiçoada, que matasse aquela gente, que tão cruel
se mostrara, que até minha pobre mãezinha, tão frágil, já tão velhinha, por maldade acorrentara. E
Iemanjá, onde estava que nossa desgraça não via, nossa dor não sentia, o seu peito não sangrava?

Seus ouvidos não ouviam a súplica que eu lhe fazia? Se Iemanjá ordenasse, o mar se abriria, as ondas nos envolveriam; ao meu povo ela daria a desejada esperança, e aos que nos escravizavam, a necessária vingança.

Porém, nada aconteceu, minha mãezinha não resistiu e morreu; seu corpo ao mar foi lançado, o
meu povo amedrontado, no mercado foi vendido, uns pra cá, outros pra lá e, como gado, com ferro
em brasa marcado.

Onde é que estava Ogum? Que aquela gente não vencia, onde estavam as suas armas, as suas
lanças de guerra?

Porém, nada acontecia, e a toda parte que se olhava, somente um coisa via... terra.

Terra que sempre exigia mais de nossos corpos suados, de nossos corpos cansados.

Era a senzala, era o tronco, o gato de sete rabos que nos arrancava o couro, era a lida, era a
colheita que para nós era estafa, para o senhor era ouro.

Quantas vezes, depois que o sol se escondia, lá no fundo da senzala, com os mais velhos
aprendia que no nosso destino no fim não seria sempre assim, quantas vezes me disseram que Zambi
olhava por mim.

Bem me lembro uma manhã, que o rancor era grande, vi sair da casa grande a filha do meu
patrão.

Ingênua, desprotegida, meu pensamento voou: eis a hora da vingança, vou matar essa criança,
vou vingar a minha gente, e se por isso morrer, sei que vou morrer contente.

E a pequena caminhava alegre, despreocupada, vinha em minha direção.

Como a fera aguarda a caça, eu esperava ansioso, minha hora era chegada. Eu trazia as mãos suadas, nesse momento odioso, meu coração disparava, vi o tronco, vi o chicote, vi meu povo sofrendo, apodrecendo, morrendo e nada mais vi então. Correndo como um possesso, agarrei-a por um braço e levantei-a do chão.

Porém, para minha surpresa, mal eu ergui a menina, uma serpente ferina, como se ora o próprio
vento, fere o espaço, errando, por minha causa, o seu bote foi tão fatal, tudo ocorreu tão de repente,
tudo foi de forma tal, que ali parado eu ficara, olhando a serpente que sumia no matagal.

Depois, com a criança em meus braços, olhei meus punhos de aço que a deviam matar... olhei
seus lindos olhinhos que insistiam em me fitar. Fez-me um gesto de carinho, eu estava emocionado,
não sabia o que falar, não sabia o que pensar.

Meus pensamentos estavam numa grande confusão, vi a corrente, o tronco, as minhas mãos que
vingavam, vi o chicote, a serpente errando o bote... senti um aperto no coração, as minhas mãos
calejadas pelo machado, pela enxada, minhas mãos não matariam, não haveria vingança, pois meu
Deus não permitira que morresse essa criança.

Assim o tempo passou, de rapaz forte de antes, bem pouca coisa restou, até que um dia chegou
e Benedito acabou...

Mas, do outro lado da morte eu encontrei nova vida, mais longa, muito mais forte, mais de amor
e de perdão, os sofrimentos de outrora já não importam agora, por que nada foi em vão...

Fomos mártires nessa vida, desta Umbanda tão querida, religião do coração, da paz, do amor, do
perdão”.

240 - Umbanda e Candomblé no mesmo terreiro?

Afinal que é COSMOGÊNESE- RUBENS SARACENI EXPLICA

      
              Uma Cosmogênese Umbandista
            por Rubens Saraceni


A Umbanda é uma renovação do tradicional culto às divindades africanas, englobados na classificação “cultos das nações”, assim denominado porque cada povo possuía sua religião própria,
com seus ritos específicos, mas que mantinham uma analogia muito grande, tanto na preparação sacerdotal quanto organizacional, de seus panteões divinos.

Com o passar dos anos o Panteão Nagô dos povos nigerianos ou de língua Yorubá acabou se destacando no Brasil e se impondo sobre os demais, pois os Orixás popularizaram-se com a vinda de
muitos escravos nigerianos, trazidos principalmente para a Bahia a partir do final do século XVIII e início do século XIX.

Sua classe sacerdotal era mais organizada e destacou-se muito rapidamente e mais ainda no decorrer dos séculos XIX e XX, espalhando o Culto aos Orixás para todo o Brasil, adaptando-os
conforme foi possível e procurando conservar o máximo possível do conhecimento sobre eles.

Sendo a transmissão oral a forma que possuíam para preservarem o conhecimento, muito se perdeu sobre os Orixás e só uns poucos deles tornaram-se bem conhecidos e tiveram seus Cultos
tradicionais preservados desde 1780 até 1908, quando foi fundada a Umbanda por Pai Zélio de Moraes.

Assim, muitas das coisas que se sabia sobre eles dentro dos seus cultos tradicionais na Nigéria não chegaram até nós ou haviam sido adaptadas conforme foi possível.

Daí, para os primeiros umbandistas, não havia muito sobre os Orixás à disposição, e se um Caboclo identificava-se como de Ogum, de Xangô etc. os seus médiuns ficavam sem muitas
informações seguras sobre esses Orixás, e quase todos recorriam aos santos católicos sincretizados com eles como forma de conhecê-los.

E os santos católicos tiveram suas historias popularizada pelos umbandistas, que as passavam de mão em mão para poderem ensinar os novos médiuns, sendo que os santos sincretizados com os Orixás tornaram-se muito populares e muito cultuados no Brasil devido à compra de suas imagens para os altares umbandistas.

Esse conhecimento bem “terra” sobre os Orixás predominou no 1º século de existência da Umbanda, graças ao sincretismo e ao que se sabia sobre os santos católicos.

Ao estudioso da Umbanda, basta consultar os livros de muitos autores umbandistas para confirmarem o que até aqui afirmamos.

Não havia um conhecimento profundo sobre os Orixás, e o que se sabia ou se escrevia sobre eles não saía desse nível “terra” do conhecimento.

Antes de terem se espalhado pelo mundo todo, os Orixás só haviam sido cultuados pelos povos Nagôs ou Nigerianos... E na língua Yorubá.

Mas um conhecimento novo sobre os Orixás começou a ser aberto por um espírito chamado “Pai Benedito de Aruanda”, e ensinado por seu médium psicógrafo e fundador do Colégio de Umbanda
Sagrada.

E isso, sem que ele fosse Teólogo ou formado em qualquer Escola Iniciática, Esotérica ou Ocultista, mas criando uma base para o estudo doutrinário e teológico umbandista.

Toda religião tem sua cosmogênese ou gênese divina, que descreve para os seus seguidores a forma como Deus criou o “mundo”.

A Umbanda por ser a somatória de várias doutrinas e rituais religiosos, tanto pode escolher a cosmogênese dos povos Nagô, quanto aos Cultos Indígenas Brasileiros, assim como pode servir-se da Judaica, incorporada pelo Cristianismo, pois essas três religiões estão presentes devido à manifestação dos Caboclos e Pretos-velhos, dentro de uma moral Cristã.

Também pode recorrer à cosmogênese da última religião de guias espirituais hindus, chineses etc.

Mas sempre será uma adaptação de cosmogêneses alheias, muitas delas já extintas no plano material.

Portanto, por ser a somatória do conhecimento de espíritos doutrinados em outras religiões, a Umbanda não pode e não deve optar por nenhuma delas porque não seria aceita por todos os
umbandistas, com cada um tendo seu mentor espiritual formado por alguma das outras religiões do passado ou da atualidade.

Logo, a Umbanda tem que ter sua própria cosmogênese, genuinamente umbandista.

Ainda que se sirva da base Yorubana na nomenclatura do seu Panteão Divino e das qualidades dos Orixás e tudo o mais, deve preservar a “essência” desse conhecimento que nos chegou através da transmissão oral para que o culto aos Orixás se perpetuasse no tempo e servisse de ponto de partida para o surgimento de novas religiões fundamentadas neles, tal como Judaísmo preservou sua
cosmogênese que, posteriormente, fundamentou o Cristianismo e o Islamismo, grandes religiões da atualidade, muito maiores em número de seguidores.

Como qualquer uma das antigas cosmogêneses só agradaria um número limitado de seguidores da Umbanda, após observar a religião em seu lado material por muito tempo, os “espíritos superiores” que a fundaram através de Pai Zélio de Morais liberaram todo um conhecimento ainda não disponível até então no plano material que fundamenta todas as suas práticas religiosas e magísticas sem, em momento algum, contradizer ou negar a essência da cosmogênese Yorubana ou Nagô.

Até porque esse não é o propósito deles, e sim fundamentar tudo o que foi preservado e o que não chegou ao Brasil e só existe na Nigéria.

A cosmogênese disponibilizada pelos espíritos mentores da religião umbandista não se fundamenta em mitos ou lendas, e sim no estudo profundo e elevadíssimo desenvolvido nas escolas espirituais existentes nos planos mais elevados do nosso Planeta, estudo esse desenvolvido por espíritos que já não encarnam mais, porque ascensionaram à 7ª faixa vibratória positiva da dimensão
humana da vida e hoje atuam em beneficio da humanidade através de suas hierarquias ou correntes espirituais, que chegam até o plano material através dos guias espirituais dos médiuns umbandistas e
dos protetores espirituais que todo ser encarnado possui.

Essa cosmogênese é tão abrangente que explica a religião Umbanda, todos os Orixás cultuados nela, todas as linhas de trabalhos espirituais, todas as ancestralidades dos filhos dos Orixás, todas as práticas religiosas e imagísticas realizadas na Umbanda e pelos umbandistas.

Também explica as cores, o uso de colares, de fitas, de cordões, de toalhas, de flores, de pedras, de ervas, de velas, de líquidos, de pós, de pembas, de pontos riscados e cantados etc.

Enfim, ela explica a existência dos seres e das coisas criadas por Deus, assim como explica porque cada pessoa, seja umbandista ou não, possui ligação com os Sagrados Orixás e deles pode servir-se, mesmo que não tenha sido iniciada na Umbanda e nada saiba sobre eles, as divindades, mistérios que governam a Criação Divina.

Alguns dos livros que trazem esse conhecimento novo seguem abaixo:

Umbanda Sagrada
Tratado Geral de Umbanda
Orixás Ancestrais
Orixá Exu
Orixá Pomba-gira
Orixá Exu Mirim
Livro de Exu
Doutrina e Teologia de Umbanda
Teogonia de Umbanda
Código de Umbanda
Gênese de Umbanda
Formulário de Consagrações Umbandista
Iniciação à Escrita Mágica Simbólica
Código da Escrita Mágica Simbólica
Tratado de Escrita Mágica etc.
Todos editados pela Madras Editora.

Os Guias Reencarnam?