quinta-feira, 31 de dezembro de 2015


        O “Passe Espírita” e o “Passe Umbandista”

Por Alexandre Cumino

“A um médium é solicitado que conheça o mínimo indispensável para que possa realizar as
práticas de Umbanda e seus rituais. Também é exigido que estude um pouco, porque só assim, entenderá tudo o que acontece dentro de um templo de Umbanda durante a realização das giras de trabalho.”
Rubens Saraceni1

A palavra “passe” tem origem no Espiritismo, codificado por Allan Kardec, e traz a ideia
de “passar” ou “transmitir” algo a alguém. 

A doutrina codificada por Kardec tem base cristã e encontra no Evangelho as muitas passagens em que Jesus cura as pessoas e “expulsa” espíritos indesejados por meio da imposição de mãos. Algo que vamos encontrar em muitas outras culturas como a egípcia, a grega, a celta, a chinesa, a indiana ou em tradições indígenas e xamânicas. 

Estudiosos do passado e do presente se debruçam sobre os fundamentos científicos das técnicas de “passe magnético”, desde Hermes Trimegistro, Fo-Hi, Asclépio, Pitágoras, Hipócrates, Paracelso, Van Helmont, Mesmer, Du Potet e outros.

Na obra de Allan Kardec vamos encontrar (A Gênese, Cap. XIV, 1:14, 15 e 18) a descrição
dos “Fluidos” e sua manipulação:

Os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, não os manipulando como os homens manipulam os gases, mas por meio do pensamento e da vontade. O pensamento e a vontade são para os Espíritos o que a mão é para os homens...

Pode-se dizer, sem receio de errar, que há, nesses fluidos, ondas e raios de pensamentos, que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros...

O pensamento do encarnado atua sobre os fluidos espirituais como o dos desencarnados;
transmite-se de Espírito a Espírito pelo mesmo veículo, e, conforme sua boa ou má qualidade, saneia ou vicia os fluidos circundantes...

No “Passe Espírita” o médium manipula estes fluidos por meio de técnicas que foram se desenvolvendo com o tempo. 

Aqui no Brasil devemos, principalmente, a Bezerra de Menezes e Edgard Armond, o método já consagrado e largamente utilizado em boa parte dos “Centros Espíritas”.

A padronização dos passes e outras práticas doutrinárias... foram providências adotadas na Federação Espírita dos Estado de São Paulo para efetivar a unidade das práticas espíritas, assunto de alta relevância, levado ao Congresso de Unificação realizado em 1947 nesta Capital.

Estas são as palavras que “prefaciam” o título Passes e Radiações: 

Métodos Espíritas de Cura de autoria de Edgard Armond, 1950. Podemos dizer que o conteúdo deste livro norteou e norteia até hoje o método e técnicas utilizadas no Espiritismo Brasileiro, em Rubens Saraceni. Código de Umbanda.
São Paulo: Ed. Madras, 2006. P.79
Que o “Passe Magnético” subdivide-se por categorias como P1, P2, P3, P4. 

Além do Passe de Limpeza e da Auto Cura. A realização destes passes é feita por qualquer pessoa de boa vontade que tenha estudado o método, para algumas situações no entanto é necessário certa sensibilidade ou Dom mediúnico. 

A maioria dos métodos é explicada por uma corrente de
energia/magnetismo e fluidos que estabelecem um circuito de forças entre “operador passista” e consulente (assistido). 

Dentro do processo são definidos alguns conceitos como a polaridade das mãos (direita = positiva, esquerda = negativa) e os centros de força, denominados de chacras por influência oriental, assim como a importância de um conhecimento básico sobre a fisiologia do corpo material e espiritual.

“Quando o Espírito é de elevada categoria, possui grande poder curativo, muito diferente e muito melhor que o que possui o magnetizador encarnado.” 
Edgard Armond2

O “Passe Umbandista” não é apenas um “passe magnético” ou material e sim um “Passe Espiritual”, aplicado por um espírito. 

Assim como Edgard Armond classificou diferentes métodos de aplicação do Passe Magnético para diferentes necessidades, também os espíritos que se manifestam na Umbanda aplicam métodos variados de acordo com a necessidade de cada consulente, dentro dos variados recursos que cada espírito guia, entidade/mentor,possui. 

Sem esquecer que cada um recebe na medida de seu
merecimento e afinidade,podendo um encarnado bloquear uma ação positiva direcionada a ele mesmo como consequência de sua postura mental. 

Pois muitos merecem mas não estão abertos emocionalmente ou psicologicamente para receber o que a espiritualidade lhe oferece, por vários motivos como descrença, irritação, mentalidade critica e posturas interesseiras desfocadas de um objetivo espiritual.

“Para que os passes magnéticos produzam melhor efeito, é necessário que, previamente, o operador estabeleça laços fluídicos de simpatia, solidariedade e confiança entre si e o doente; qualquer sentimento de antipatia, temor ou desconfiança de qualquer deles, impedirá o fluxo natural e espontâneo dos fluidos entre ambos.
” Edgard Armond 3

O “Passe Umbandista”, para além de “Passe Espiritual”, pode ser definido como a aplicação de um conjunto de técnicas mágico-religiosas, além de explorar todos os recursos possíveis de imposição de mãos, utiliza elementos e técnicas variadas e até inusitadas.

“Porém, enquanto nos centros espíritas usa-se o passe magnético, nos centros de Umbanda também se recorre aos passes energéticos, quando são usados diversos materiais
(fumo, água, ervas, pedras ou colares, etc.) que descarregam os acúmulos negativos alojados nesses campos eletromagnéticos... 

Nem sempre o que parece folclore ou exibicionismo realmente o é. 

Se os mentores dos médiuns de Umbanda exigem determinados colares de pedras, eles sabem para que servem e dominam seu magnetismo, assim como as energias minerais cristalinas irradiadas pelas pedras. Ervas e fumo, quando potencializadas com energias etéricas pelos mentores, também se tornam poderosos limpadores de campos eletromagnéticos.

4
A finalidade é de alcançar maior êxito de acordo com as necessidades, o merecimento e os recursos disponíveis. 

2 Edgard Armond. Passes e Radiações: Métodos Espíritas de Cura. São Paulo: Ed.Aliança, 1997. P. 85
3 Edgard Armond. Passes e Radiações: Métodos Espíritas de Cura. São Paulo: Ed.Aliança, 1997. P.91

4 Rubens Saraceni. Código de Umbanda. São Paulo: Ed. Madras, 2006. P. 101

Embora há um conjunto de métodos e recursos característicos da Umbanda. 

Muitas entidades, em especial os pretos velhos, por exemplo, realizam o benzimento, que se distingue do “Passe Magnético”, por empregar uma ação mais relacionada ao poder do verbo, elementos e simbologia, considerada “Magia Popular”. 

Também é possível identificar métodos complexos de Magia Riscada (Magia de Pemba), abrindo espaços mágicos (Pontos Riscados) que muitas vezes lembram Mandalas do Hinduísmo ou mesmo Fórmulas Cabalísticas da Real Arte Simbólica e Mística Hebraica entre outras práticas de Ocultismo e Hermetismo. 

Entre os elementos mais utilizados podemos identificar velas, água, óleo, pedras, essências, fumo, ervas, tecidos, ponteiros e a citada pemba (giz utilizado para traçar símbolos), dentro de um ambiente de terreiro, mágico-religioso por natureza. 

Nos métodos se observam rezas, orações, preces, evocações, invocações, determinações e formulas mágico-religiosas associadas a banhos, defumações, oferendas e outros.

Todos estes recursos estão mais ou menos associados ao “Passe Umbandista”, no qual se cria um ambiente de Som, Cores, Aromas e Luzes, capaz de inebriar de forma positiva todos
os cinco sentidos do consulente a fim de conduzi-lo a certo estado de consciência desejado.

Durante o “Passe Umbandista” observamos a entidade espiritual fazer a imposição de mãos, segurar velas direcionadas aos chacras ou traçando movimentos no ar, colocam colares (guias) no pescoço do consulente ou o colocam dentro da mesma em circulo no chão. 

Atiram ponteiros em pontos riscados, fazem gestos rituais e movimentos com os pés e mãos que nos faz crer na “Magia Gestual”. 

Em meio a tantos recursos, que nos encantam e fascinam, nos chama a atenção, em especial, o estalar de dedos, bem característico em quase todas as linhas de trabalho. 

Muitas pesquisas e especulações já foram realizadas sobre esta prática, entre elas são identificadas as energias que existem na ponta de cada um dos dedos da mão, que são pequenos chacras ou vórtices de energia (“chacrinhas”), e, o “choque” vibratório desencadeado no ar quando o dedo médio estala sobre a região da mão chamada de “monte de Vênus”, causando vibração astral e sonora o que desperta certa energia dentro do campo em que está atuando. 

Este “Estalar de Energias” pode assumir contextos vaiados de acordo com o que esteja associado, por meio do pensamento ou movimentos. 

Além deste contexto pode-se usar o estalar de dedos como um simples gesto de descarregar as energias absorvidas pelas palmas das mãos. 

Um caboclo ou outro espírito guia eleva sua mão ao alto (ou ao lado) buscando certa energia que será irradiada ao consulente, num movimento rápido, ao mesmo tempo em que transmite esta energia positiva, retira os eflúvios negativos e os
“descarrega” com um estalar de dedos. 

Os movimentos longitudinais, transversais e circulares também foram descritos na obra de Edgard Armond, em que: 

Os passes longitudinais movimentam os fluidos, os transversais os dispersam e os circulares e as imposições de mãos os concentram, o mesmo sucedendo com o sopro quente. Este ultimo merecendo ainda um estudo à parte.

No entanto pode-se associar procedimentos mais ou menos magísticos com os mesmos, ou seja a relação entre estalos e números com o poder de realização que cada um deles possui, aplicando-se sequências de estalos que podem variar, por exemplo, de 2x3,3x3,4x3 ou ainda estalos que desenham formas geométricas no ar. 

Lembrando que a aplicação de símbolos associados a ideias e intenções, com suas respectivas invocações é a mais explicita “magia simbólica”, encontrada nas mais variadas culturas. 

Assim sequências de estalos “desenham” no ar, cruzes, estrelas e círculos; firmando ou estabelecendo pontos e espaços vibratórios, aos quais podem ter função nesta realidade ou abrir portais para outras realidades.

Muito mais poderíamos escrever sobre o “Passe Umbandista” e seus recursos, no entanto não pretendemos em um único artigo esgotar o que é inesgotável. 

Fica aqui um comentário final sobre a importância do estudo, não para complicar o que é realizado de forma tão simples por nossos guias de Umbanda, mas com a finalidade de compreendermos o que eles realizam, com a consciência de que eles sim estudam e estudaram muito para realizar este
trabalho espiritual. 

Não estudamos por um movimento do Ego ou para substituir a presença dos mesmos, mas para lhes oferecer maiores recursos psíquicos, espirituais e materiais.

Estudamos para ver o quanto somos ainda “neófitos” (aprendizes) nesta senda, em que Caboclo (a), Preto Velho (a), Baiano (a), Boiadeiro (a), Marinheiro (a), Cigano (a), Exu e Pomba Gira são nossos Mestres.


Entrevista publicada na Revista Cristã de Espiritismo, Edição de nº 44
Norberto Peixoto
Norberto Peixoto nasceu em Porto Lucena, Estado do Rio Grande do Sul, no ano de 1963. Ainda criança, viu-se diante do mediunismo através de seus pais, ativos trabalhadores espiritualistas.
Sendo filho de militar, residiu no Rio de Janeiro até o final de sua adolescência. Aos 11 anos deparou-se com a mediunidade aflorada, presenciando desdobramentos astrais noturnos com clarividência. Aos 28 anos foi iniciado na Maçonaria, oportunidade em que teve acesso aos conhecimentos espiritualistas, ocultos e esotéricos desta rica filosofia multimilenar e universalista, que somente são propiciados pela freqüência regular em loja maçônica estabelecida. Em 1996 iniciou sua educação mediúnica sob a égide kardequiana, e atualmente desempenha tarefas como médium trabalhador na Choupana do Caboclo Pery.
Tem, até agora, sete livros publicados pela Editora do Conhecimento (www.edconhecimento .com.br). São eles: Chama Crística, Samadhi, Evolução no planeta azul, Apometria hoje (diversos autores); Jardim dos Orixás, Vozes de Aruanda e, a mais recente e A missão da Umbanda. No livros psicografados, conta com a orientação espiritual de Ramatís e Vovó Maria Conga. A seguir, Norberto Peixoto fala sobre Umbanda e Espiritismo.

Norberto, conte-nos um pouco da sua trajetória como espiritualista.
Sempre estive ligado às questões da espiritualidade. Meus pais eram médiuns umbandistas. Então, desde pequenino vi-me nos terreiros, nas giras de caridade, no meio dos caboclos, pretos velhos e exus. Aos sete anos fui batizado na Umbanda. Posteriormente, fui iniciado na Maçonaria, fiz escola mediúnica em um centro espírita pertencente à Federação Espírita do Rio Grande do Sul. De índole questionadora, de intensa curiosidade, leio muito, de todas as religiões. Especialmente a Teosofia me traz muitos esclarecimentos.
Então, durante toda a minha vida nunca deixei de receber a energia da Umbanda. Especialmente os últimos 14 anos – estou com 43 anos de idade – foram de muita intensidade, entre desenvolvimento e trabalho caritativo dando consultas. Na Umbanda, quando baixo minha cabeça, curvo minhas costas, anulo minha personalidade, dando espaço para os amigos espirituais se manifestarem através de minha sensibilidade mediúnica, é o momento em que o meu espírito mais se realiza, mais se completa, mais se aproxima da Unidade Divina que nos faz sentir toda nossa potencialidade cósmica ainda adormecida. Amo a Umbanda e minha vida pertence aos Orixás. Minha encarnação é destinada ao trabalho caritativo e de esclarecimento pela Luz Divina, minha amada religião.

Quando psicografa, você é auxiliado pelos espíritos Vovó Maria Conga e Ramatís. Fale-nos um pouco sobre este processo.
Este processo conjuga experiência em desdobramento astral, quando recebo instruções, e o ato de escrever propriamente dito. Sou médium consciente, clarividente e clariaudiente,  e de irradiação intuitiva. Logo, quanto mais eu estudar e ler, melhor preparado estarei para transmitir em palavras os pensamentos dos amigos do lado de lá. É tudo muito natural e eu interajo com a equipe de revisores da editora. Aceito abertamente as críticas e nunca me recusei a reescrever partes do texto que saem “truncadas”, de difícil entendimento ao leitor, pois quando escrevo os pensamentos ficam muito rápidos e já troquei o teclado do computador várias vezes!

Como foi o processo de consagração espiritual que você passou para se tornar dirigente de um templo umbandista?
Ocorreu nas dependências do Centro Espiritualista Caboclo Pery – www.caboclopery. com.br , que é dirigido por Mãe Iassan. Os ritos iniciáticos objetivam propiciar uma melhor sintonia com as energias ou forças da natureza conhecidas como Orixás. Assim, dentro da regência de minha coroa mediúnica: Oxossi, Iansã, Yemanjá e Omulu, ao qual foi confirmada através do jogo de búzios, participei de uma série de preceitos, que fortaleceram o meu tônus mediúnico para cumprir as funções sacerdotais de direção e fundação de um terreiro de Umbanda.

E os trabalhos desenvolvidos pela casa?
Temos palestras, passes, consultas espirituais e atendimento marcado de desobsessão e cura, onde se utiliza a apometria como técnica de apoio. As preleções antes das sessões levam a uma participação dos consulentes que são convidados a serem agentes ativos do benefício espiritual buscado. Temas como livre arbítrio, merecimento, leis de causa e efeito, entre outras verdades universais são abordados. Na consulta, existe o consolo e a orientação individual, direta, frente a frente com médiuns “incorporados” , o que é uma característica peculiar da Umbanda.
Quanto ao trabalho com apometria – na verdade, um atendimento espiritual umbandista – o consulente comparece, preenche uma ficha e participa de uma palestra. Após triagem mediúnica, atendemos até 5 consulentes por noite, dependendo do grau de complexidade dos casos que se apresentam e dos transtornos psíquico-espirituais envolvidos. Para maiores informações o leitor pode visitar http://www.choupana docaboclopery. blogspot. com/.
 
Ainda com relação a apometria, você acha que sua aplicação especificamente nos centros espíritas contraria as orientações de Kardec?
De forma alguma. Contraria o comodismo, a passividade letárgica, o desinteresse e a vaidade dos homens, que se consideram proprietários das orientações de Kardec. Pela circunstância da apometria liberar a mediunidade do estigma de animismo, explorando todo o potencial psíquico dos sensitivos, ativamente induzindo o desdobramento astral e trabalhando com as ressonâncias vibratórias de traumas do passado dos atendidos, entre outros distúrbios anímicos, isto causa muito medo em algumas lideranças espíritas, especialmente as que estão garroteadas ao patrulhamento ideológico do movimento federativo, que imputa uma cartilha rígida, engessando a progressividade das pesquisas mediúnicas. Refutada a apometria, acusam-na de rito sincrético que conspurca a pureza doutrinária do Espiritismo. 


E com relação aos templos umbandistas? Como tem sido a aplicação da técnica apométrica?
Pela universalidade natural e convergente existente na cultura e prática umbandista, percebo cada vez um interesse maior. Por outro lado, agrupamentos livres das amarras federativas compreendem melhor a Umbanda e dão espaço para os espíritos comprometidos com a formas de apresentação que lhe são afins de se manifestarem, o que não ocorre nos centros tradicionais. Neste aspecto, a utilização da apometria tem demonstrado que o importante é a essência caritativa e não a forma que ela se concretiza, se aproximando vibratoriamente da Umbanda.

Por que existe, ainda, tanto preconceito?
Basicamente, desconhecimento, preconceito atávico e medo. Há que se comentar que cada vez mais a Umbanda se fará divulgar, buscando espaços na sociedade e esclarecendo suas práticas rituais. Percebo isto claramente pelas diversas lideranças que estão surgindo por este Brasil afora. Infelizmente, ainda temos muitas sacerdotes que acabam vivendo da religião, em vez de viver para a religião, o que contribui para que a Umbanda seja atacada.  Lembro sempre Caboclo Pery, guia espiritual que chefia a choupana, que nos diz: “todos os atendimentos espirituais devem ser  gratuitos. Os médiuns devem viver para a Umbanda e para os Orixás, não da Umbanda e dos Orixás. A prática caritativa da mediunidade em essência é viver servindo e não viver para ser servido. O dia que uma casa de Pery na Terra aceitar uma moeda, não é mais uma casa de Pery.”

Quais seriam as diferenças básicas entre a metodologia kardequiana e as práticas umbandistas com relação ao desenvolvimento da mediunidade?
Na Umbanda, através de seus rituais, cânticos, ervas, preceitos e fundamentos milenares, a aparelhagem mediúnica é conduzida para um maior acoplamento com o corpo astral da entidade. O médium, estando levemente desdobrado, os seus chacras se interpenetram com os chacras do visitante do além, havendo uma alteração de consciência, prolongada e sutil. Na metodologia desenvolvida por Kardec, o processo é mais mental e voltado para o estudo doutrinário. Mas, tanto no Espiritismo quanto na Umbanda, busca-se o aprimoramento moral do médium, acima de tudo.

Como se processa a mecânica de incorporação com os médiuns umbandistas?
Há um desdobramento astral parcial, através do magnetismo da corrente e do condicionamento do sensitivo. Com isto, a entidade astral se aproxima e se acopla nos chacras do medianeiro. Obviamente, existe ampla gradação neste processo, variando de médium para médium, de entidade para entidade, de linha vibratória para linha vibratória, e que não se mostra estática no tempo, variando conforme a necessidade evolutiva do aparelho e das entidades, pois ambos evoluem na prática caritativa dos terreiros.

E a questão da mediunidade inconsciente, que é raríssima?
Em décadas de terreiro, só conheci um médium inconsciente, que hoje se encontra com 94 anos. Na nova geração, desconheço. Há que se considerar que o médium que não lembra de nada não aprende com a entidade. Creio que no início da Umbanda e do Espiritismo também, tínhamos necessidade de efeitos físicos, curas fenomenais, daí a importância de um desdobramento total dos médiuns, que ocasiona a não lembrança do transe e uma maior doação de ectoplasma.

Qual seria a diferença básica entre o centro espírita e o templo umbandista? E quais as semelhanças?
A diferença básica, sem dúvida, é a ausência de ritual nos centros espíritas, que existe abundantemente e até de maneira anárquica, diversificada, na Umbanda, ao contrário da rígida padronização no movimento espírita ortodoxo. Entendo que as semelhanças se dão pelo apelo caritativo, mediunidade, aceitação da reencarnação, da pluralidade dos mundos habitados, entre outras verdades universais. Agora, a maior semelhança é Jesus, sincretizado com o orixá Oxalá, na Umbanda.

Para encerrar, gostaria de deixar uma mensagem aos nossos leitores?
A todos os leitores que nunca estiveram em um centro de Umbanda, procurem visita-los, sentir as vibrações e perceber a simplicidade, amor e sabedoria existentes. Na dúvida, se o terreiro é ou não de Umbanda, informe-se se existe gratuidade e se é contra o sacrifício de animais. Estes critérios são meio caminho andado para você se encontrar com a Luz Divina, esta amada religião, tão vilipendiada, mas que dá oportunidade a todas as formas espirituais de fazerem a caridade: com os espíritos que souberem mais, aprenderemos, com os que souberem menos, ensinaremos, e todos nós evoluiremos.  Umbanda é uma religião de inclusão, de convergência universal, desde a sua fundação, pelo luminoso e missionário Caboclo das Sete Encruzilhadas.







DEUS - EVOLUÇÃO - REDENÇÃO

DEUS

Pergunta: Como podemos compreender Deus?


Emmanuel - Kardec inicia sua série de perguntas aos Espíritos questionando sobre o que é Deus, e a ele é feita a seguinte afirmativa: (...) “Deus é a Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas”.
Questionando quando o homem compreenderia a Divindade, responderam-lhe (...) “Quando não mais tiver o espírito obscurecido pela matéria. Quando, pela sua perfeição, se houver aproximado de Deus, ele o verá e compreenderá”. (Do livro Plantão de Respostas)


EVOLUÇÃO (I)

Pergunta: Por que vivemos cada vez mais pensando apenas nas coisas materiais e pouquíssimo nas espirituais?


Emmanuel - O homem atual vive deslumbrado com os bens materiais, que são colocados à sua disposição pela tecnologia que avança a cada dia através de uma propaganda que insiste em coloca-lo como caminho da felicidade. Porém, quando os adquirimos não compramos a solução para os verdadeiros problemas da alma, que são as frustrações, as angústias, a solidão e tantos outros.
Entretanto, espiritualizar-se não significa ser miserável, nem tão pouco deixar de desfrutar de maneira racional os bens materiais que o homem com sua inteligência e seu trabalho já criou. Espiritualizar-se é conduzir a vida no caminho do Bem, do amor ao próximo e da caridade material e espiritual, é fazer e domar seus mais instintos, enfim, é fazer crescer o reino de Deus dentro de nós.


EVOLUÇÃO (II)

Pergunta: Seria o esclarecimento diferente de evolução espiritual? Se for como se manter equilibrado, uma vez que os nossos erros tornam-se muito mais claros em nossas mentes?


Emmanuel - Sim, o esclarecimento é diferente de evolução porque conduz à evolução espiritual.
Quando se tem de percorrer uma estrada longa e cheia de pedregulhos, isto não se torna mais fácil quando esta estrada está iluminada? Contudo, o trajeto se torna mais curto ou menos cansativo, porque o viajante consegue enxergar o final da estrada?
O esclarecimento apenas nos mostra a direção correta a tomar, mas não poupa a caminhada para se chegar ao objetivo final que é a perfeição.
Assim, para manter-se equilibrado, basta persistir no caminho iluminado, mesmo que os pedregulhos, às vezes firam nossos pés. Se resistirmos à tentação de buscarmos “atalhos” na escuridão, porque as pedras no caminho estejam nos parecendo muito grandes, estaremos adquirindo o aprendizado que, no final do caminho, terá nos proporcionado a evolução espiritual.
Não devemos temes nossos erros; eles são janelas a nos indicarem o caminho a seguir. Seria impossível vence-los, se não os identificássemos tais quais são, nem maiores, nem menores.


EVOLUÇÃO (III)

Pergunta: A Doutrina Espírita busca o amor no seu mais amplo sentido. As sucessivas encarnações ocorrem para evoluir o espírito até o Amor Maior. Será que para “pagar” ou “evoluir” é necessário que um espírito seja encarnado numa pessoa que vive na miséria absoluta, como em 
Biafra, etc.?

Emmanuel - Se um espírito reencarna em condições aparentemente desfavoráveis é porque obteve o merecimento para tanto. Isto porque, se ele solicita uma oportunidade de resgate de uma dívida do passado, esta oportunidade só lhe é dada quando ele demonstra possuir todos os instrumentos para vencer os obstáculos com os quais deve-se deparar nesta nova existência. Se ele falha; foi porque optou por não usar as qualidades que tem, preferindo manter-se na mesma atitude de encarnações anteriores.
Por outro lado, pode-se interpretar o reencarne em condições desfavoráveis também como uma missão, onde o espírito vem preparado para suplantar dificuldades e beneficiar a todos os que o circundam. É o caso dos grandes descobridores de curas na medicina, de grandes inventores, etc. O principal é que a humanidade, em geral, se desenvolve quando surgem problemas que a obrigam a buscar soluções novas. É preciso lembrar, no entanto, que os problemas só são vencidos quando lhes damos a devida proporção.

EVOLUÇÃO (IV)
Pergunta: O desenvolvimento espiritual está apenas relacionado com a atual vida do espírito encarnado ou se junta às experiências anteriores (outras encarnações)?


Emmanuel - O estágio de desenvolvimento espiritual do ser não se relaciona com as ações presente, mas profundamente reflete as vidas anteriores. Entretanto, o mais importante é que se continue trabalhando na Seara do Bem, a fim de que as reencarnações futuras se processem dentro de padrões de moral sempre mais elevados.

EVOLUÇÃO (V)

Pergunta: O que poderá acontecer ao espírito que após várias encarnações não consegue se tornar um bom espírito?


Emmanuel - O homem não pode conservar-se indefinidamente na ignorância, porque tem que atingir a finalidade que a Providência lhe assinalou. Ele se instrui por força das sucessivas reencarnações, e as mudanças morais e intelectuais se estabelecem pouco a pouco.
Nessas condições, o homem, utilizando-se da liberdade de escolha, processa sua evolução ao longo dos tempos, pois, como nos dizem os espíritos, somos todos por Deus criados já predestinados a nos tornarmos um dia espíritos puros.


EVOLUÇÃO (VI)

Pergunta: É necessário para o espírito atingir o grau máximo de evolução espiritual, aprender todos os conceitos do conhecimento terreno, como os da Física, da Química, da Antropologia e outros?

Emmanuel - Em “O Livro dos Espíritos” Kardec pergunta* (...) “Os seres a que chamamos anjos, arcanjos e serafins formam uma categoria especial, de natureza diferente da dos outros Espíritos?” (...) Respondem os Espíritos: (...) “Não, são os espíritos puros, os que se acham no mais alto grau da escala e reúnem todas as perfeições”. Logo, cada espírito tem necessidade de experimentação no conhecimento da inteligência, procurando por si mesmo enfatizar o imperativo do próprio aperfeiçoamento no campo moral.

REDENÇÃO

Pergunta: Quando redimiremos espiritualmente a nós mesmos?


Emmanuel - Redimiremos a nós mesmos, quando compreendermos, conscientemente, ao preço do próprio raciocínio, que todos os sofrimentos decorrem das leis de amor que governam a vida. Para isso, é indispensável entendamos que todos vivemos subordinados ao princípio inelutável da reencarnação e que nos reencarnaremos, na Terra ou em outros mundos, tantas vezes quantas se fizeram necessárias, para que se nos edifique o aperfeiçoamento espiritual, seja diante dos imperativos da evolução, que nos traçam inevitáveis labores educativos, ou à frente dos encargos expiatórios que nos apontam graves tarefas de recapitulação e corrigenda, para o expurgo da consciência culpada.

Pergunta: Bastará apenas sofrer para que resgatemos os compromissos adquiridos nas existências passadas?


Emmanuel - Se temos o coração aberto em feridas profundas, isso não basta; é preciso transubstanciar as próprias dores em esperanças e ensinamentos.

Pergunta: Basta apenas chorar para realizarmos o expurgo do coração?


Emmanuel - Às vezes, trazemos o semblante lavado de lágrimas, no entanto, o desespero e a inconformação desmancham-se igualmente em pranto amargo; para expurgar o mundo íntimo é mister valermo-nos da provação como recurso de trabalho, para converter a tribulação em alegria e a dificuldade em lição.

Pergunta: Basta apenas bendizer as mãos que nos ferem?


Emmanuel - Bendigamos as mãos que nos ferem. Imperioso, porém, nos dediquemos a fazer algo a fim de que se renovem para o entendimento e para a prática do bem, sob a inspiração dos bons exemplos que lhes pudermos ofertar.

Pergunta: Basta apenas acreditar na verdade, sofrendo o escárnio dos que a recusam?


Emmanuel - Dizemos a verdade e, não raro, riem de nós muitas vezes, só porque isso aconteça, julgam-nos dispensados de trabalhar pela expansão de novas luzes, quando a verdade reclama continuísmo de abnegação para que triunfe a benefício de todos.

Pergunta: Basta apenas recolher pedras de ingratidão?


Emmanuel - Recolher pedras de ingratidão por pétalas de carinho é heroísmo de muitos. Multidões respiram nesse câmbio, estranho de padecimentos morais, preferindo acomodar-se à hipnose da queixa. A ingratidão é sempre resultado da ignorância e para que a ingratidão alheia produza bênçãos redentoras em nós, é necessário prosseguir plantando entendimento e fraternidade na terra seca da incompreensão, de que muitos outros já desertaram.

Pergunta: Para que nos purifiquemos, será suficiente acomodar-nos à tristeza e a soledade, por que nos reclamem serviço demasiado à felicidade dos outros?


Emmanuel - Quase sempre exigimos o máximo dos outros na construção da nossa felicidade, sem lhes darmos de nós o máximo na preservação da própria segurança. Entretanto, em apoio de nosso burilamento, urge sustentar atividades e encargos de sacrifício.

Pergunta: Ainda para isso será suficiente que padeçamos o assédio da injúria?


Emmanuel - Caluniam-nos freqüentemente, no entanto, só pelo fato de sermos apontados pelo dedo da injúria, isso não adianta ao aperfeiçoamento espiritual. Impreterível usar compaixão e bondade, à frente daqueles que nos perseguem.

Pergunta: Para que obtenhamos quitação, ante o pretérito culposo, bastará experimentar agruras e provações no reduto doméstico, de ânimo sistematicamente recolhido à rixa e ao mau humor?


Emmanuel - Em muitas circunstâncias, o lar é o cárcere dos nossos sonhos, contudo, é útil recordar que vastas fileiras de criaturas se encontram na mesma situação, agravando padecimentos e lutas pelo abandono das responsabilidades que lhes competem. A regeneração pela qual ansiamos espera por nossa felicidade aos compromissos assumidos, com a nossa disposição de arquivar planos de ventura para quando a Divina Sabedoria nos proclame a libertação.

Pergunta: A fim de que nos aperfeiçoamos, chegará viver sempre sob inquietações aflitivas?


Emmanuel - Vergamo-nos sob o fardo de inquietações opressivas, mas, para que essas inquietações nos sirvam ao reajuste da alma, cabe-nos a obrigação de transforma-las em testemunhos de fé e serviço ao próximo.

Pergunta: Em favor do aprimoramento próprio, será suficiente arrepender-nos dos erros e faltas cometidas?


Emmanuel - Convém notar que o reconhecimento dos próprios erros, perpetrados nesse ou naquele setor da existência, é o primeiro passo da reabilitação, mas, esse começo é empreendimento nulo se não resolvemos corrigir-nos com humildade e paciência, na execução dos deveres que a vida nos recomenda.

Pergunta: É lícito contarmos com o auxílio dos Espíritos Superiores grandes missionários da evolução moral na Terra para que nos apóiem no trabalho da própria regeneração?


Emmanuel - Sim, vezes inúmeras, costumamos refletir nas grandes façanhas dos Espíritos valorosos que transformaram a Terra... Acolheram-se à filosofia e criaram novas formas de pensamento,; Abraçaram a ciência e exalçaram o progresso; Elevaram-se na cultura e engrandeceram a arte; Agigantaram-se no trabalho e aperfeiçoaram a vida; entretanto, reencarnaram-se entre os homens, lavrando o solo, mecanizando atividades, burilando palavras, renovando costumes, aprimorando leis, desbravando caminhos... Todos eles, cada qual a seu modo, entregaram-nos as chaves da evolução, melhorando a vida por fora. No íntimo, porém, seja nas horas tranqüilas da existência ou nas crises de aflição que nos supliciem a alma, é forçoso lembrar que a redenção verdadeira nasce dentro de nós.


(*) – Kardec, Allan – O Livro dos espíritos – Instituto de Difusão Espírita – 1a. Ed, outubro de 1974, Araras, S.Paulo, página 86, pergunta 128.
(Dos livros “Plantão De Respostas “ e "Leis do Amor" – Francisco Cândido Xavier)

Realização:
Instituto André Luiz
http://www.institutoandreluiz.org/ 

Gráficos e Formatação - Lori
Loop musical: Zamphir em "O Pastor Solitário"

Da lei de destruição
Estudo: E. Mollo
com base in O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, cap. VI
obra codificada por Allan Kardec.
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Destruição necessária e destruição abusiva

É lei da Natureza a destruição, pois é preciso que tudo se destrua para renascer e se regenerar. Porque, o que chamamos destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação e melhoria dos seres vivos. As criaturas são instrumentos de que Deus se serve para chegar aos fins que objetiva. Para se alimentarem, os seres vivos reciprocamente se destroem, destruição esta que obedece a um duplo fim: manutenção do equilíbrio na reprodução, que poderia tornar-se excessiva, e utilização dos despojos do invólucro exterior que sofre a destruição. Esse invólucro é simples acessório e não a parte essencial do ser pensante. A parte essencial é o princípio inteligente, que não se pode destruir e se elabora nas metamorfoses diversas por que passa. (LE – 728).

A Natureza tem os meios de preservação e conservação a fim de que a destruição não se dê antes de tempo. Toda destruição antecipada é contrária ao desenvolvimento do princípio inteligente. Por isso foi que Deus fez que cada ser experimentasse a necessidade de viver e de se reproduzir. (LE – 729)

O homem deve procurar prolongar a vida, para cumprir a sua tarefa. Tal o motivo por que Deus lhe deu o instinto de conservação, instinto que o sustenta nas provas. A não ser assim, ele muito freqüentemente se entregaria ao desânimo. A voz íntima, que o induz a repelir a morte, lhe diz que ainda pode realizar alguma coisa pelo seu progresso. A ameaça de um perigo constitui aviso, para que se aproveite da dilação que Deus lhe concede. Mas, ingrato, o homem rende graças mais vezes à sua estrela do que ao seu Criador. (LE – 730)

Ao lado dos meios de conservação, a Natureza colocou os agentes de destruição para manter o equilíbrio e servir de contrapeso. (LE – 731)

A necessidade de destruição guarda proporções com o estado mais ou menos material dos mundos. Cessa, quando o físico e o moral se acham mais depurados. São muito diversas as condições de existência nos mundos mais adiantados do que o nosso. (LE – 732)

A necessidade da destruição se enfraquece no homem, à medida que o Espírito sobrepuja a matéria. Assim é que, como podemos observar, o horror à destruição cresce com o desenvolvimento intelectual e moral. (LE – 733)

O direito de destruição que o homem tem sobre os animais se acha regulado pela necessidade, que ele tem, de prover ao seu sustento e à sua segurança. O abuso jamais constitui direito. (LE – 734)

A destruição, quando ultrapassa os limites que as necessidades e a segurança, da caça, por exemplo, quando não objetiva senão o prazer de destruir sem utilidade, significa predominância da bestialidade sobre a natureza espiritual. Toda destruição que excede os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus. Os animais só destroem para satisfação de suas necessidades; enquanto que o homem, dotado de livre-arbítrio, destrói sem necessidade. Terá que prestar contas do abuso da liberdade que lhe foi concedida, pois isso significa que cede aos maus instintos. (LE – 735)

O excesso de escrúpulo, quanto à destruição dos animais que muitos povos tem, no tocante a um sentimento louvável em si mesmo, se torna abusivo e o seu merecimento fica neutralizado por abusos de muitas outras espécies. Pois, entre tais povos, há mais temor supersticioso do que verdadeira bondade. (LE – 736)


Flagelos destruidores

Deus fere a Humanidade por meio de flagelos destruidores com a finalidade de fazê-la progredir mais depressa, pois a destruição é uma necessidade para a regeneração moral dos Espíritos, que, em cada nova existência, sobem um degrau na escala do aperfeiçoamento. Preciso é que se veja o objetivo, para que os resultados possam ser apreciados. Não podemos apreciar a destruição do nosso ponto de vista pessoal porque os qualificamos de flagelos, por efeito do prejuízo que nos causam. Essas subversões, porém, são freqüentemente necessárias para que mais pronto se dê o advento de uma melhor ordem de coisas e para que se realize em alguns anos o que teria exigido muitos séculos.  (LE – 737 ver também 744)

Deus, também emprega todos os dias outros meios que não os flagelos destruidores para que a Humanidade consiga sua melhora, pois que deu a cada um os meios de progredir pelo conhecimento do bem e do mal. O homem, porém, não se aproveita desses meios. Necessário, portanto, se torna que seja castigado no seu orgulho e que se lhe faça sentir a sua fraqueza. Se nesses flagelos, tanto sucumbe o homem de bem como o perverso, nisto também esta a justiça de Deus. Durante a vida, o homem tudo refere ao seu corpo; entretanto, depois da morte pensará de maneira diversa. A vida do corpo bem pouca coisa é. Um século no nosso mundo não passa de um relâmpago na eternidade. Logo, nada são os sofrimentos de alguns dias ou de alguns meses, de que tanto nos queixamos. Representam um ensino que se nos dá e que nos servirá no futuro. Os Espíritos, que preexistem e sobrevivem a tudo, formam o mundo real.. O mundo espírita, preexiste e sobrevive a tudo.  Esses os filhos de Deus e o objeto de toda a Sua solicitude. Os corpos são meras vestes com que eles aparecem no mundo. Por ocasião das grandes calamidades que dizimam os homens, o espetáculo é semelhante ao de um exército cujos soldados, durante a guerra, ficassem com seus uniformes estragados, rotos, ou perdidos. O general se preocupa mais com seus soldados do que com os uniformes deles. Não podemos considerar a vida, simplesmente qual ela é, mas conforme representa seu verdadeiro objetivo em relação ao infinito. Em outra vida, as vítimas desses flagelos acharão ampla compensação aos seus sofrimentos, se souberem suportá-los sem murmurar. (LE – 738 e 85)

Venha por um flagelo a morte, ou por uma causa comum, ninguém deixa por isso de morrer, desde que haja soado a hora da partida. A única diferença, em caso de flagelo, é que maior número parte ao mesmo tempo.

Se, pelo pensamento, pudéssemos elevar-nos de maneira a dominar a Humanidade e abrangê-la em seu conjunto, esses tão terríveis flagelos não nos pareceriam mais do que passageiras tempestades no destino do mundo. (Nota LE - 737/738)

Os flagelos destruidores, também tem utilidade do ponto de vista físico, não obstante os males que ocasionam. Muitas vezes mudam as condições de uma região. Mas, o bem que deles resulta só as gerações vindouras o experimentam. (LE – 739)

Os flagelos são provas que dão ao homem ocasião de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, se o não domina o egoísmo. (LE – 740)

Em parte, é dado ao homem intentar contra os flagelos que o afligem, porém, não, como geralmente o entende. Muitos flagelos resultam da imprevidência do homem. À medida que adquire conhecimentos e experiência, ele os vai podendo afastar nauralmente, isto é, prevenir, se lhes sabe pesquisar as causas. Contudo, entre os males que afligem a Humanidade, alguns há de caráter geral, que estão nos decretos da Providência e dos quais cada indivíduo recebe, mais ou menos, o contragolpe. A esses nada pode o homem opor, a não ser sua submissão à vontade de Deus. Esses mesmos males, entretanto, ele muitas vezes os agrava pela sua negligência.  (LE – 741)

Na primeira linha dos flagelos destruidores, naturais e independentes do homem, devem ser colocados a peste, a fome, as inundações, as intempéries fatais às produções da terra. Não tem, porém, o homem encontrado na Ciência, nas obras de arte, no aperfeiçoamento da agricultura, nos afolhamentos e nas irrigações, no estudo das condições higiênicas, meios de impedir, ou, quando menos, de atenuar muitos desastres? Certas regiões, outrora assoladas por terríveis flagelos, não estão hoje preservadas deles? Que não fará, portanto, o homem pelo seu bem-estar material, quando souber aproveitar-se de todos os recursos da sua inteligência e quando aos cuidados da sua conservação pessoal, souber aliar o sentimento de verdadeira caridade para com os seus semelhantes? (Nota LE - 739 à 741)

É freqüente a certos indivíduos faltarem formas de subsistência, mesmo em meio à abastança. É pelo nosso egoísmo, que nem sempre fazemos o que nos cumpre. E no mais das vezes, devemo-lo a nós mesmos. "Buscai e achareis"; estas palavras não querem dizer que, para acharmos o que desejamos, basta uma atitude passiva, mas é preciso procurá-lo sempre com ardor e perseverança, sem desanimar ante os obstáculos, que muito amiúde são simples meios de que se utiliza a Providência para nos experimentar a constância, a paciência e a firmeza. (LE – 707)

Algumas vezes, os obstáculos à realização dos nossos projetos são, com efeito, decorrentes da ação dos Espíritos; muito mais vezes, porém, nós é que andamos errados na elaboração e na execução dos nossos projetos. Muito influem nesses casos a posição e o caráter do indivíduo. Se nos obstinamos em ir por um caminho que não devemos seguir, os Espíritos nenhuma culpa têm dos nossos insucessos. Nós mesmos nos constituímos em nossos maus gênios. (LE – 534)

Se é certo que a Civilização multiplica as necessidades, também o é que multiplica as fontes de trabalho e os meios de viver.. Forçoso, porém, é convir em que, a tal respeito, muito ainda lhe resta fazer. quando ela houver concluído a sua obra, ninguém deverá haver que possa queixar-se de lhe faltar o necessário, a não ser por própria culpa. A desgraça, para muitos, provém de inveredarem por uma senda diversa da que a Natureza lhes traça. É então que lhes falece a inteligência para o bom êxito. Para todos há lugar ao Sol, mas com a condição de que cada um ocupe o seu e não o dos outros. A Natureza não pode ser responsável pelos defeitos da organização social, nem pelas conseqüências da ambição e do amor-próprio.

Fora preciso, entretanto, ser-se cego, para se não reconhecer o progresso que, por esse lado, têm feito os povos mais adiantados. Graças aos louváveis esforços que, juntas, a Filantropia e a Ciência não cessam de despender para melhorar a condição material dos homens e mau grado ao crescimento incessante das populações, a insuficiência da produção se acha atenuada, pelo menos em grande parte, e os anos mais calamitosos do presente não se podem de modo algum comparar aos de outrora. A higiene pública, elemento tão essencial da força e da saúde, a higiene pública, que nossos pais não conheceram, é objeto de esclarecida solicitude. O infortúnio e o sofrimento encontram onde se refugiem. Por toda parte a Ciência contribui para acrescer o bem-estar. Poder-se-á dizer que já se haja chegado à perfeição? Oh! Não, certamente; mas, o que já se fez deixa prever o que, com perseverança, se logrará conseguir, se o homem se mostrar bastante avisado para procurar a sua felicidade nas coisas positivas e sérias e não em utopias que o levam a recuar em vez de fazê-lo avançar. (Nota LE - 707, 534)


Guerras

O que impele o homem à guerra é a predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem - o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos freqüente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas, fazendo-a com humanidade, quando a sente necessária. (LE – 742)

A guerra desaparecerá da face da Terra, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Nessa época, todos os povos serão irmãos. (LE – 743)

O que objetivou a Providência, tornando necessária a guerra é a conquista da liberdade e o progresso.

A guerra freqüentemente tem por objetivo e resultado a escravização, contudo escravização temporária, para esmagar os povos, a fim de fazê-los progredir mais depressa. (LE – 744)

Aquele que suscita a guerra para proveito seu é grande culpado e esse muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição. (LE – 745)


Assassínio

É um grande crime aos olhos de Deus o assassínio, pois que aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão. Aí é que está o mal. (LE – 746)

Quanto ao grau de culpabilidade em todos os casos de assassínio, Deus é justo, julga mais pela intenção do que pelo fato. (LE – 747)

Em caso de legítima defesa, só a necessidade o pode escusar. Mas, desde que o agredido possa preservar sua vida, sem atentar contra a de seu agressor, deve fazê-lo.  (LE – 748)

O homem não tem culpa dos assassínios que pratica durante a guerra, pois é constrangido pela força, mas é culpado das crueldades que cometa, sendo-lhe também levado em conta o sentimento de humanidade com que proceda.  (LE – 749)

Tanto o parricídio como o infanticídio são ambos igualmente condenável aos olhos de Deus porque é crime, ou seja, uma violação culpável da lei Divina.  (LE – 750)

A explicação que entre alguns povos, já adiantados sob o ponto de vista intelectual, o infanticídio seja um costume e esteja consagrado pela legislação, e que o desenvolvimento intelectual não implica a necessidade do bem. Um Espírito, superior em inteligência, pode ser mau. Isso se dá com aquele que muito tem vivido sem se melhorar: apenas sabe. (LE – 751)


Crueldade

O sentimento de crueldade é o que tem de pior no instinto de destruição, porquanto, se, algumas vezes, a destruição constitui uma necessidade, com a crueldade jamais se dá o mesmo. Ela resulta sempre de uma natureza má.  (LE – 752)

A crueldade forma o caráter predominante em alguns povos primitivos, porque a matéria prepondera sobre o Espírito. Eles se entregam aos instintos do bruto e, como não experimentam outras necessidades além das da vida do corpo, só da conservação pessoal cogitam e é o que os torna, em geral, cruéis. Demais, os povos de imperfeito desenvolvimento se conservam sob o império de Espíritos também imperfeitos, que lhes são simpáticos, até que povos mais adiantados venham destruir ou enfraquecer essa influência.  (LE – 753)

A crueldade deriva da falta de desenvolvimento do senso moral; não da carência, porquanto o senso moral existe, como princípio, em todos os homens. É esse senso moral que dos seres cruéis fará mais tarde seres bons e humanos. Ele, pois, existe no selvagem, mas como o princípio do perfume no gérmen da flor que ainda não desabrochou.  (LE – 754)

Em estado rudimentar ou latente, todas as faculdades existem no homem. Desenvolvem-se, conforme lhes sejam mais ou menos favoráveis as circunstâncias. O desenvolvimento excessivo de uma detém ou neutraliza o das outras. A sobreexcitação dos instintos materiais abafa, por assim dizer, o senso moral, como o desenvolvimento do senso moral enfraquece pouco a pouco as faculdades puramente animais. (Nota LE - 752 à 754)

Pode dar-se que, no seio da mais adiantada civilização, se encontrem seres às vezes cruéis quanto os selvagens, do mesmo modo que numa árvore carregada de bons frutos se encontram verdadeiros abortos. São, selvagens que da civilização só têm o exterior, lobos extraviados em meio de cordeiros. Espíritos de ordem inferior e muito atrasados podem encarnar entre homens adiantados, na esperança de também se adiantarem, Mas, desde que a prova é por demais pesada, predomina a natureza primitiva.  (LE – 755)

A sociedade dos homens de bem um dia se verá expurgada dos seres malfazejos. A Humanidade progride. Esses homens, em quem o instinto do mal domina e que se acham deslocados entre pessoas de bem, desaparecerão gradualmente, como o mau grão se separa do bom, quando este é joeirado. Mas, desaparecerão para renascer sob outros invólucros. Como então terão mais experiência, compreenderão melhor o bem e o mal. Temos disso um exemplo nas plantas e nos animais que o homem há conseguido aperfeiçoar, desenvolvendo neles qualidades novas. Só ao cabo de muitas gerações o desenvolvimento se torna completo. É a imagem das diversas existências do homem.  (LE – 756)


Duelo

Não se pode considerar o duelo como um caso de legítima defesa, pois é um assassínio e um costume absurdo, digno dos bárbaros. Com uma civilização mais adiantada e mais moral, o homem compreenderá que o duelo é tão ridículo quanto os combates que outrora se consideravam como o juízo de Deus. (LE – 757)

Poder-se-á considerar o duelo como um suicídio por parte daquele que, conhecendo a sua própria fraqueza, tem a quase certeza de que sucumbirá.  E quando as probabilidades são as mesmas para ambos os duelistas, haverá assassínio ou suicídio, ou seja, um e outro. (LE – 758)

Em todos os casos, mesmo quando as probabilidades são idênticas para ambos os combatentes, o duelista incorre em culpa, primeiro, porque atenta friamente e de propósito deliberado contra a vida de seu semelhante; depois, porque expõe inutilmente a sua própria vida, sem proveito para ninguém. (Nota LE - 757/758)

O que chamam de ponto de honra, em matéria de duelo, na verdade é orgulho e vaidade, dupla chaga da Humanidade. Há casos em que a honra se acha verdadeiramente empenhada e em que uma recusa fora covardia, isso depende dos usos e costumes. Cada país e cada século têm a esse respeito um modo de ver diferente. Quando os homens forem melhores e estiverem mais adiantados em moral, compreenderão que o verdadeiro ponto de honra está acima das paixões terrenas e que não é matando, nem se deixando matar, que repararão agravos. (LE – 759)

Há mais grandeza e verdadeira honra em confessar-se culpado o homem, se cometeu falta, ou em perdoar, se de seu lado esteja a razão, e, qualquer que seja o caso, em desprezar os insultos, que o não podem atingir. (Nota LE - 759)


Pena de morte

Incontestavelmente desaparecerá algum dia, da legislação humana, a pena de morte e a sua supressão assinalará um progresso da Humanidade. Quando os homens estiverem mais esclarecidos, a pena de morte será completamente abolida na Terra. Não mais precisarão os homens de serem julgados pelos homens. Pode ser que esta época ainda esteja muito distante de nós, mas ela virá a ser realidade. (LE – 760)

Sem dúvida, o progresso social ainda muito deixa a desejar. Mas, seria injusto para com a sociedade moderna quem não visse um progresso nas restrições postas à pena de morte, no seio dos povos mais adiantados, e à natureza dos crimes a que a sua aplicação se acha limitada. Se compararmos as garantias de que, entre esses mesmos povos, a justiça procura cercar o acusado, a humanidade de que usa para com ele, mesmo quando o reconhece culpado, com o que se praticava em tempos que ainda não vão muito longe, não poderemos negar o avanço do gênero humano na senda do progresso. (Nota LE - 760)

A lei de conservação dá ao homem o direito de preservar sua vida. Mas não poderá usar ele desse direito na tentativa de eliminar da sociedade um membro perigoso, pois há outros meios de ele se preservar do perigo, que não matando.. Demais, é preciso abrir e não fechar ao criminoso a porta do arrependimento..  (LE – 761)

A pena de morte, que pode vir a ser banida das sociedades civilizadas, pode ter sido de necessidade em épocas menos adiantadas, aliás necessidade não é o termo. O homem julga necessária uma coisa, sempre que não descobre outra melhor. À proporção que se instrui, vai compreendendo melhormente o que é justo e o que é injusto e passará a repudiar os excessos que cometeu nos tempos de ignorância em nome da justiça.  (LE – 762)

Será um indício de progresso da civilização a restrição dos casos em que se aplica a pena de morte, não se pode duvidar disso. Pois podemos observar como nos revoltamos quando lemos alguma narrativa das carnificinas humanas que outrora se faziam em nome da justiça e, não raro, em honra da Divindade; das torturas que se infligiam ao condenado e até ao simples acusado, para lhe arrancar, pela agudeza do sofrimento, a confissão de um crime que muitas vezes não cometera. Mas se houvéssemos vivido nessas épocas, teríamos achado tudo isso natural e talvez mesmo, se fôramos sido juiz, fizéssemos outro tanto. Assim é que o que pareceu justo, numa época, nos parece bárbaro em outra. Só as leis divinas são eternas; as humanas mudam com o progresso e continuarão a mudar, até que tenham sido postas de acordo com aquelas. (LE – 763)

Muito temos nos enganados a respeito destas palavras de Jesus: “Quem matou com a espada, pela espada perecerá” como acerca de outras. A pena de talião é a justiça de Deus. É Deus quem a aplica. Todos nós sofremos essa pena a cada instante, pois que somos punidos naquilo em que havemos pecado, nesta existência ou em outra. Aquele que foi causa do sofrimento para seus semelhantes virá a achar-se numa condição em que sofrerá o que tenha feito sofrer. Este o sentido das palavras de Jesus. Aliás ele disse também: “Perdoai aos vossos inimigos”, assim como nos ensinou a pedir a Deus que nos perdoe as ofensas como houvermos perdoado, isto é, na mesma proporção em que houvermos perdoado. (LE – 764)

A pena de morte imposta em nome de Deus é tomar o homem o lugar de Deus na distribuição da justiça. Os que assim procedem mostram quão longe estão de compreender Deus e que muito ainda têm que expiar. A pena de morte é um crime, quando aplicada em nome de Deus, e os que a impõem se sobrecarregam de outros tantos assassínios. (LE – 765)





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Catimbó ou Jurema Sagrada?