quarta-feira, 23 de março de 2016



                                        Preto Velho no Kardecismo


Por Alexandre Cumino

O objetivo desta matéria é observar diferentes pontos de vista sobre o “preto-velho” no Espiritismo (aqui chamado popularmente de “Kardecismo”) para uma reflexão umbandista sobre tais conceitos. 

Muitos de nós, umbandistas, temos amigos e parentes kardecistas e passamos “saias justas” quando não paramos para pensar nestas questões antes que elas venham à tona, no que diz respeito à “evolução” dos espíritos que trabalham na Umbanda. 

Abaixo vemos algumas linhas do irmão Divaldo Pereira Franco, que é muito respeitado no meio kardecista, portanto formador de opinião, também nós o respeitamos e admiramos seu esforço, trabalho e dedicação à obra espírita de Allan Kardec no plano material.  

“Na cultura brasileira, remanescente do africanismo, há uma postura muito pieguista, que é a do preto velho. 

E muitas pessoas acham que é sintoma de boa mediunidade ser instrumento de preto velho. 

Quando lhes explicamos que não há pretos velhos, nem brancos velhos, que todos são Espíritos, ficam muito magoadas, dizendo que nós, espíritas, não gostamos de pretos velhos. 

E lhes explicamos que não é o gostar ou não gostar. 

Se tivessem lido em O Livro dos Médiuns, O Laboratório do Mundo Espiritual, saberiam que se a entidade mantém determinadas características do mundo físico, é porque se trata de um ser atrasado. 

Imagine o Espírito que manquejava na Terra, porque teve uma perna amputada, ter de aparecer somente com a perna amputada. 

Ele pode aparecer conforme queira, para fazer-se identificar, não que seja o seu estado espiritual. 

Quando, ao retornar à Pátria da Verdade, com os conhecimentos das suas múltiplas reencarnações anteriores, pode apresentar-se conforme lhe aprouver. 

Então, a questão do preto velho é um fenômeno de natureza animista africanista, de natureza piegas. 

Porque nós achamos que o fato de ter sido preto e velho, tem que ser Espírito bom, e não é. 

Pois houve muito preto velho escravo que era mau, tão cruel quanto o branco, insidioso e venal. 

E também houve e há muito branco velho que é venal, é indigno e corrompido. 

O fato de ter sido branco ou preto não quer dizer que seja um Espírito bom. 

Cabe ao médium ter cuidado com esses atavismos, e quando esses Espíritos vierem falando errado, ou mantendo os cacoetes característicos das reencarnações passadas, aclarar-lhes quanto à desnecessidade disso”. [...]1  

Esta postura e ponto de vista de Divaldo Pereira Franco também pode ser observada no site: http://www. youtube.com/watch?v=jiSlMMCtSlE, onde podemos ouvir a seguinte gravação:   
“O Espírito que se apresenta para o grupo como preto-velho ou preta-velha e se diz orientador de sofredores e amigo ou amiga do grupo pode ser levado a sério? 

Não pode. 

Esse espírito pode ser muito bom, mas é muito ignorante. 

E a nossa tarefa é retirar a ignorância, os amigos notem bem, porque que ele tem que ser um “preto-velho”? 
  
“Ah! Eu sou um Preto-velho!” 

Dr. Bezerra é velho, mas não é um “branco-velho”, notem uma discriminação, está no nosso inconsciente discriminar.  

“Ah! Eu sou um “preto-velho”. - Não meu irmão, você foi, você agora não tem cor, você superou, esta encarnação foi muito benéfica para você, desenvolveu sua humildade, mas você agora, note você é um espírito! 

Espírito não tem cor! 

Você pode reassumir outras reencarnações, então tire de sua mente esta sua condição de escravo”. [...]   
Salvo estar totalmente enganado, Divaldo e Chico têm posicionamento diferente com relação ao “preto-velho” e Kardec não encontrou nenhum entrave em estabelecer comunicação com o espírito de um ex-escravo, “Pai César”.  

Não vamos fazer juízo de valor, nem questionar a postura kardecista, mas, enquanto  umbandista, quero esclarecer a condição espiritual daquele que se apresenta como “preto-velho” na Umbanda, que tem orgulho de sua condição e que não mais é atingido pelas injúrias da carne. 

Para tal invoco os fatos registrados no dia 15 de Novembro de 1908, quando Zélio de Moraes, participando de uma sessão kardecista, presenciou espíritos de ex-escravos, negros, “pretos-velhos”, serem “convidados a se retirar” de tal sessão. 

Zélio incorpora uma entidade que pergunta: “Por que expulsam estes humildes?” em seguida explica que foi Frei Gabriel de Malagrida, no entanto, também havia sido um índio brasileiro e era como índio que se apresentaria em uma nova religião, a Umbanda, assumindo o nome de Caboclo das Sete Encruzilhadas. 

Sei que muitos estão cansados de ouvir a história do Caboclo das Sete Encruzilhadas, no entanto, as palavras diretas deste caboclo não deixam dúvidas de que se manifesta como índio porque quer, vem como caboclo por opção e não por falta de opção. 

Da mesma forma os “pretos-velhos” da Umbanda, se manifestam de tal forma por opção, muitos nem foram negros e nem velhos na última encarnação, muito menos escravos. 

A identidade “preto-velho” é uma forma de manifestação, é um grau ou se preferir algo como uma “patente”. 

É também uma homenagem a tantos espíritos iluminados e missionários que encarnaram como escravos negros, apenas para orientar a nós outros que convivemos com eles naquele tempo. 

Por fim, devemos esclarecer que “pretos-velhos” se manifestam em falanges, vários espíritos assumem um mesmo nome e uma mesma forma plasmada, o que caracteriza a organização astral de suas atividades, em uma hierarquia que responde a um irmão mais velho - um hierarca, “dono do nome” -  que foi ou assumiu para si o nome de Pai João, Mãe Maria e outros. 

A opção de se manifestar como um “negro-escravo” que é o “preto velho” causa de forma automática um impacto doutrinário, que nos faz entrar em reflexões de autoanálise com relação a nossos valores de credo e raça. 

E implicada um questionamento de “quem somos nós?” para reclamar de tantas coisas pequenas em nossa vida para alguém que sofreu no cativeiro.

 “Preto velho” é uma “roupagem”, uma forma plasmada opcional e, se bebem ou fumam, é por manipular estes elementos, na Umbanda que é mágica, nunca por vício ou apego.  

Encontramos este “fragmento de texto” ou “recorte”, acima, nos sites: www.abadeesp.hpg.ig.com.br/requisitosmediuni.htm Como parte de um texto intitulado:
“Requisitos para Educar a Mediunidade” por Divaldo Pereira Franco. 
No site: www.scribd.com/doc/6670433/Divaldo-Franco-mEdiuns-e-Mediunidade encontramos o mesmo texto como a segunda parte de uma apostila, 10 páginas, intitulada “Médiuns e Mediunidade”.

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