quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Tira Dúvidas nº 129



                               Consultas e “Consultas”...
Por Fernando Sepe


Essa história passa–se em um terreiro de Umbanda, simples, comum, aconchegante e
bondoso como todos os outros que existem pelo Brasil afora.

Na verdade essa história provavelmente repete–se em cada terreiro de Umbanda...

Gira de pretos–velhos, todos os médiuns incorporados com esses bondosos velhinhos já encontram–se sentados, “pitando” seus cachimbos e esperando pela assistência espiritual individual que logo há de começar. Em um dos cantos do terreiro podemos ouvir o seguinte
“diálogo”:

- Salve vô! Sabe, vim aqui pra te falar algumas coisas, na verdade um monte de coisas.
Estou com problema de dinheiro de família de doença de emprego de namoro de... de....

- Ah sim, boa noite, mas como eu ia te falando tá tudo muito difícil, você acredita que
eu não estou conseguindo nem me manter com o que ganho?

Além disso, aquele idiota do meu patrão, eu deveria estar no lugar dele, ele não sabe fazer nada direito. E meu pai então, já não o agüento mais, vive a me cobrar e agora está doente e não melhora nunca. Para complementar a minha situação eu estou saindo com uma menina, mas não sei ao certo, viu?
Acho que ela está me traindo, o que você acha vô?

- O quê?
Eu que tenho que saber se ela está me traindo?
Como vou saber disso? Acho que está.

O senhor deveria me ajudar, isso é super importante na minha vida, o que vou fazer se
realmente ela estiver saindo com outro?

- É você está certo, caso ela me ame não faria isso. Bem, se o senhor está dizendo,
então está bem.

Mas e quanto ao meu chefe, não dá para dar um jeito nele?

Se eu estivesse no cargo dele com certeza conseguiria ter um padrão de vida melhor.

- Não, claro que eu não estou lhe desejando mal, afinal você já me explicou muitas
vezes que, aqui na Umbanda, não se faz esse tipo de coisa.
Mas sabe como é, né? Não dá para  dar um jeitinho?

- Tá bom, não precisa brigar também, né, vó?

Olha, já está ficando tarde e eu tenho que ir, porque ainda vou encontrar a Lúcia. Vou deixar o nome do meu pai aqui, você pode dar uma ajudada na saúde dele? Ah, e faz ele parar de me cobrar tanto, viu?

- Certo, vou na paz de “Oxa”...é esse mesmo. Semana que vem estou de volta, pra contar se meu pai melhorou, apesar de que eu duvido.

Também volto e conto se descobri, enfim, o “amante” da Lúcia. Obrigado vô, você me ajuda muito. Continua me protegendo,
tá?!

E o preto-velho ficou lá pensando que algo estava errado, muito errado na visão daquele irmão, sobre os atendimentos e giras de Umbanda.

No canto oposto do terreiro, podíamos escutar um segundo diálogo.

Uma médium “incorporada” com sua vózinha dava conselhos, ou melhor, como dava conselhos! 

Claro, aos problemas que ela própria arrumava:

- Salve mi zifia! Tá tudo bom? Porque nêga tá vendo que vós tá com uma cara estranha!

- Tá tudo bom mesmo, fia? Suncê tem certeza? Nêga tá achando que vosmecê tá
angustiada, meio triste, não é verdade...?

- Hehehehe, nêga sabia! Filha não qué fala muito porque é muito tímida, mas nêga sabe
porque vê o fundo de alma da fia. Nêga vê que fia precisa de mais dinheiro e mais felicidade
no amô. Mas num se preocupa, essa nêga véia aqui pode resolver seus problemas viu fia. É só
você ter fé, não precisa de mais nada não! Essa nêga é “feiticeira da antiga”, muito
poderosa, vai trazer tudo que essa filha precise rapidamente, hihihi...

- Vosmecê já tem namorado? Úu, úu, úu, dexa nêga véia vê...Esse menino num presta
pra vosmecê não fia, essa nêga tá “vendo” ele com outra agora. Ele tá te enganando minha
fia. Mas pode deixa, nêga vai dar um jeito nele também.

- Num fica triste, eu sei que você confiava nele, mas é assim mesmo. Quando Nosso
Senhor, governador do mundo, o senhor Jesus Cristo, sai do coração das pessoas é isso que
dá. Por isso que nêga insiste que você tem que ler, ler, reler, de novo e de novo o evangelho.
Lá tá escrito como você tem que se comportar, como você tem que agir e tudo mais né fia.

- O quê a traição do seu namorado e os problemas de dinheiro tem a ver com evangelho?
Ora fia, tudo. Na verdade fia tá pagando por algumas vidas passadas que nêga tá “vendo”
agora, onde fia abusou do dinheiro e dos homens, é por isso. Vosmecê sabe, isso é "carma",
vosmecê tem que sofrer para pagar o que fez no passado. Por isso leia bastante o evangelho,
releia e quem sabe o Nosso Senhor, todo poderoso, governador do mundo, Jesus Cristo te
perdoe. Vosmecê tem que fazer reforma íntima, tem que viver pelos princípios do evangelho,
tem que ser mais casta, mais solidária essas coisas.

- Você não gosta do evangelho? Não fala esse pecado fia, nosso Senhor Jesus Cristo vai
virar as costas pra vosmecê!

- Nem batizada você é? Vixi, Nossa Senhora, você é pagã fia! Precisa batizar, por isso
essas coisas tão acontecendo com vosmecê! Procura o padre pra fazê o batismo viu fia! Escuta
o que nêga tá falando...

- Tá certo, vai com as bênçãos de Nosso Senhor, Pai, Mestre, Salvador, Redentor, Jesus
Cristo. Semana que vem volta e vem falar COM ESSA NÊGA, ou com qualquer entidade que
esteja incorporado NESSE CAVALINHO tá bom? Salve fia, boa noite...

A menina se afastou e do lado da médium, a preta-velha que amparava ela pensou que
algo estava errado, muito errado, com aqueles anímicos "médiuns" que projetam seus
problemas, seus fanatismos e moralismos na vida do consulente...
Sei que provavelmente você já esteja meio desanimado com esse centro de Umbanda
amigo leitor.

Mas o convido a olhar para o último canto do terreiro, lá também está uma
médium, incorporada com um preto-velho. E o diálogo que escutamos é o seguinte:
- ...
- ...
O preto-velho abraça o menino e este retribui com todo o amor. 

Das bocas da médium e do menino palavras não brotam, mas o coração daquele preto-velho e do menino encontramse, e isso vale mais que tudo. Ele sente o amado vôzinho e entende que não tem nada a reclamar, mas sim, a agradecer pela vida. Percebe que qualquer coisa que dissesse seria
muito pequeno perante aquele momento.

Esse menino sabe que a Umbanda é religião, mas principalmente é espiritualidade e religiosidade que deve se levar no dia a dia, com bom humor, amor e discernimento. Ele agradece pela oportunidade de conhecer os Orixás, os princípios superiores e universais da espiritualidade, os guias...

Um amor toca o coração dele e o preto-velho sorri.

Afinal, nele sim a verdadeira luz da Umbanda vivia. Juntos, ligados pelos laços afetivos do coração, os dois em silêncio oram pela humanidade, oram pela paz mundial, pelo amor, pelos doentes.

Oram por aqueles que ainda não entenderam que espiritualidade e religiosidade estão dentro de cada um de nós, não estão em um templo de pedra, muito menos em uma imagem, livro sagrado ou personalidade divina.

E abraçados, naquele simples, comum, aconchegante e bondoso terreiro como todos os
outros terreiros espalhados pelo Brasil, luzes espargiram-se a todos. Mesmo para aqueles que
vão ao terreiro só para reclamar da vida, em busca de algum milagre que eles mesmos não
trabalham para que aconteça. Ou para aqueles médiuns que vivem jogando seus problemas
nas costas dos outros, como uma forma de compensar a própria incompetência de resolver os
problemas de SUA VIDA.

E aquele momento, que durou alguns minutos, foi uma eternidade no coração daquele
menino, da médium e do preto-velho.

Lá do alto, do Altíssimo, mas ainda assim muito próximo de nós, um homem de barbas, que as pessoas insistem em venerar na cruz, mas que é puro sorriso e amor disse:

- É Madalena, reforma íntima, evangelho, mestre, salvador, redentor, carma,
problemas, milagres... Tudo isso é muito pequeno perante o sorriso, a alegria e o amor. Não é
verdade?

- Com certeza querido... Com certeza...
        
                Conversando sobre Exu
Por Fernando Sepe

Dizem que Exu é um homem sério, castigador, espírito sem compaixão alguma.

Muitos falam que nem mesmo sentimento essas entidades apresentam.

Muitos temem Exu, relacionando – o com o Diabo ou com algum monstro cavernoso que a mente humana é capaz de criar.

Bem, dia desses, no campo santo de meu pai Omolu, vi algo inusitado que me fez pensar...

Um desses Exus Caveiras, que apresentam essa forma plasmada como meio de ligação a falange pertencente, chorava sobre um túmulo.
Discretamente, isso devo dizer, afinal os Caveiras em sua maioria são de natureza recatada e introspectiva, mas chorava sim.

Engraçado pensar nessa situação, não é mesmo?

Ele chorava pelos erros do passado, chorava por uma pessoa a qual amava muito, mas não mais perto dele estava. Claro, sabia que ninguém morria, mas a saudade e o remorso apertavam fundo seu coração.

Isso acontece muito no plano espiritual, onde muitas vezes os laços são quebrados devido às diferenças vibratórias.

Na verdade o laço não se quebra, apenas afrouxam-se um pouco...

Mas, voltando a nossa história, fiquei a pensar muito sobre aquele tipo de visão. Pensei que ninguém acreditaria em mim caso eu contasse esse “causo”, afinal, Exu é homem acima do bem e do mal, exu não tem sentimento, exu não chora...

E para aqueles então que endeusam “seu” Exu, pensando ser ele um grande guardião, espírito da mais alta elite espiritual, espírito corajoso, sem medos, violento guerreiro das trevas. Exu acaba assumindo na Umbanda um arquétipo, ou mito, tão supra–humano, que muitas vezes ele deixa de ser apenas o mais humano das linhas de Umbanda.

Arquétipo esse, diga–se de passagem, muito diferente do Orixá Exu, arquétipo base para a formação do que chamamos de Linha de Esquerda dentro do ritual de Umbanda.

É, eu acho que todo Exu chora. Assim como eu e você também. Inclusive, todo mundo chora, pois todos temos dores, remorsos e tristezas. Isso é humano. Mas, voltando ao campo
santo...

Logo vi um Exu, vestindo uma longa capa preta, se aproximar do triste amigo Caveira.

O que conversaram não sei, pois não ouvi, e muito menos dotado da faculdade de ler os pensamentos deles eu estava.

Mas uma coisa é certa: Os dois saíram a gargalhar muito!

“Engraçado, como é que pode?

Estava chorando até agora, e de repente sai rindo de uma hora pra outra?” _ pensei contrariado.

Fiquei alguns dias refletindo sobre isso, e cheguei a uma conclusão.

A principal característica de um Exu é o seu bom – humor.

Afinal, mesmo em situações muito complicadas, eles sempre têm uma gargalhada boa para dar. Na pior situação, mesmo que de forma sarcástica, eles se divertem.

Ele pode escrever certo por linhas tortas, errado por linhas retas, errado em linhas tortas ou sei lá mais o que, mas uma coisa é certa, vai escrever gargalhando.

Admiro esse aspecto de Exu.

Tem gente que de tanto trabalhar com Exu torna – se sério, “faz cara de mau”, vive reclamando da vida além de tornar – se um grande julgador.

A verdade é que nunca vi Exu reclamar de nada, nem julgar a ninguém.

Pelo contrário, o que vejo é que Exu nos ensina a não reclamar da vida, pois tem gente que passa por coisa muito pior e o faz com honra e... Bom – humor!

Vejo também que Exu não julga ninguém, afinal, quem é ele, ou melhor, quem somos
nós para julgarmos alguém?

Exu ensina que o que nós muito condenamos, assim o fazemos porque isso incomoda.

E saber por quê?

Porque tudo que condenamos está em nós antes de estar nos outros.

Por isso Exu não gosta daquele que é um falso pregador, aquele que vive dizendo como
os outros devem agir, vive dizendo o que é certo, vive alertando os outros contra a vaidade,
vive julgando, mas no dia – dia pouco aplica as regras que impõe para os outros.

O mundo está cheio deles.

E Exu sorri quando encontra um desses.

Mais para frente eles serão engolidos por si mesmos.

Pela própria sombra.

Mas Exu não ri porque fica feliz com isso, muito pelo contrário, ele até sente por aquela pessoa. Mas já que não dá pra fazer outra coisa, o melhor é sorrir mesmo, não é?

O certo é que a linha de Exu nos coloca frente a frente com o inimigo!

Mas aqui não estamos falando de nenhum “kiumba”, mas sim de nós mesmos. O que eu já vi de médium perdendo a compostura quando “incorporado” com Exu não é brincadeira. 

Muitos colocam suas angústias pra fora, outros seus medos e inseguranças, muitos seus complexos de
inferioridade.

Tudo isso Exu permite, para que a pessoa perceba o quanto ela é complicada e enrolada naquele sentido da vida.

Mas dizem que o pior cego é aquele que não quer ver, e o que tem de gente que não
quer enxergar os próprios defeitos...

E não sobra opção a Exu, a não ser sorrir e sorrir mesmo quando nós nos damos mal.

Mas, ainda falando dos múltiplos aspectos contraditórios de Exu, pois ele é a contradição em pessoa, devo ainda relatar mais uma experiência contraditória em relação a sua natureza.

Dia desses, depois de um “pesado trabalho de esquerda”, fiquei refletindo sobre algumas coisas.

E sempre que assim eu faço, algo estranho acontece.

Nesse trabalho, muitos kiumbas, espíritos assediadores, obsessores, eguns, ou sei lá o nome que você queiram dar, foram recolhidos e encaminhados pelas falanges de Exu que lá estavam presentes.

Sabe como é, na Umbanda, a gente não pega um livro pesado e começa a doutrinar os
espíritos “desregrados da seara bendita”.

A gente entra com a energia, com a mediunidade e com os sentimentos bacanas, deixando o encaminhamento e “doutrinação” desses amigos mais revoltados nas mãos dos guias espirituais.

Esse trabalho foi complicado. Muitos, na expressão popular, estavam “demandando o grupo”, ou seja, estavam perseguindo nosso grupo de trabalho e assistência espiritual, pois tinham objetivos e finalidades diversas e opostas.

Ninguém tinha arriado um ebó na encruzilhada contra a gente, eram atuações vindas de inteligências opostas ao trabalho proposto e atraídas pelas “brechas vibratórias” de nossos próprios sentimentos e
pensamentos. Mas que na Umbanda ainda acha – se que tudo que acontece de errado é culpa
de algum ebó na encruzilhada, isso é verdade...

Bom, o que sei é que alguns dias depois, durante a noite, enquanto eu dormia, alguém me levou até um estranho lugar.

Eu estava projetado, desdobrado, desprendido do corpo físico, ou qualquer outro nome que vocês queiram dar. Fenômeno esse muito estudado por diversas culturas espiritualistas do mundo. Fenômeno esse muito comum também dentro da Umbanda, mas pouco estudado, afinal, muitos pensam que Umbanda é “só incorporar” os guias e de preferência de forma inconsciente!

Sei, sei...Olha Exu gargalhando novamente!

Nesse local, um monte de espíritos eram levados até a mim e eu projetava energias de cura em relação a eles.

Vi várias pessoas projetadas no ambiente, inclusive gente muito próxima, do grupo.

Alguns pouco conscientes, outros ainda nada conscientes.

Mas, o importante, era a energia mais densa que vinha pelo cordão de prata e que auxiliava no tratamento daqueles irmãos sofredores.

Por quanto tempo fiquei lá não sei, afinal, a noção de tempo e espaço é muito diferente no plano astral. O que sei é que em um certo momento um Exu, que tomava conta do ambiente, veio conversar comigo:

Tá vendo quanto espírito a gente tem “pego” daquelas reuniões que vocês fazem? _
perguntou o amigo Exu.

Nossa, quantos! Muito mais do que eu podia imaginar.

E isso não é nada, comparado aos milhares que chegam, diariamente, “nas muitas casas” dos guardiões da Umbanda espalhados pelo Brasil.

Poxa, mas isso é sinal que o pessoal anda trabalhando bem, não é mesmo?

Hahahaha, mas você é um idiota mesmo, né? 

Desde quando fazer isso é um bom trabalho? 

Milhares chegam, mas sabem quantos saem daqui? Poucos! A maioria também para
servir as falanges de Exu. 

O grande problema é que os médiuns de Umbanda, pouco ou nada cuidam dos que aqui ficam precisando de ajuda.

Nossa missão aqui é transformar os antigos valores desses espíritos, mesmo que seja
através da dor. Mas, depois disso, muitos precisam ser curados, tratados. E dessa parte os
umbandistas não querem nem saber!

Ah, ainda eu pego o maldito que disseminou que Umbanda só serve para cortar magias
negras e resolver dificuldades materiais. Vocês adoram falar sobre amor e caridade, mas
quase ninguém se importa em vir até aqui cuidar desses que vocês mesmos mandaram para
cá.

É que muitos não sabem como fazer isso amigo! _

tentei eu defender os umbandistas.

Claro que não sabem! Só se preocupam em “cortar demandas”, combater feitiços e destruir “demônios das trevas”. 
Grandes guerreiros! Mas nada fazem sem os vossos Exus, parecendo mais grandes bebês chorões querendo brincar de guerra!

Lembre–se bem.

Todos que a mão esquerda derrubar terão que subir pela mão direita.

Essa é a Lei. 

Comecem a se conscientizar que ninguém aqui gosta de ver o sofrimento alheio.

Comecem a ter uma visão mais ampla do universo espiritual e da forma como a Umbanda
relaciona – se com ele.

Dedique – se mais a esses que são encaminhados nos trabalhos espirituais. 
Ore por eles, faça uma vibração por eles, tratem – os com a luz das velas e do coração. 
Busquem o conhecimento e forma de auxiliá–los.

Quero ver se amanhã, quando você não aguentar mais o chicote, e não tiver ninguém para te estender a mão, você vai achar tão “glamoroso” esse ciclo infernal de demandas, perseguições e magias negativas. 

Isso aqui é só sujeira, ódio, desgraça e tristeza. Poucos têm coragem de pousar os olhos sobre essas paragens sombrias.
_
É, isso é verdade. Muitos falam, mas poucos realmente conhecem a verdadeira situação do astral inferior a qual a Umbanda e toda a humanidade está ligada, não é mesmo?

Hahaha, até que você não é tão idiota! 

Olha, vou dar um jeito de você lembrar essa conversa ao acordar. 

Vê se escreve isso pros seus amigos umbandistas! E para de reclamar da vida. 

Quer melhorar? Trabalhe mais!

Tá certo seu Exu Ganga. 

Só mais uma coisa. Um dia desses li num livro que Ganga é uma falange relacionada ao “lixo”.
Mas você apresenta–se como um negro e ao julgar por esses facões nas vossas mãos, acho que nada tem a ver com o lixo...

Lixo é esse livro que você andou lendo! 

Ganga é uma corruptela do termo Nganga, do tronco linguístico bantu. Quer dizer “o mestre”, aquele que domina algo. O termo foi usado por muitos, desde sacerdotes até mestres na arte da caça, da guerra, da magia, etc.

Algo parecido com o Kimbanda, mas esse, mais relacionado diretamente a cura e a prática de
Mbanda.

A linha de Exus Ganga é formada por antigos sacerdotes e guerreiros negros. É isso!

Vê se queima a porcaria do livro onde você leu essa besteira de “lixo”...

Pouca coisa lembro depois disso.

Despertei no corpo físico, era madrugada e não fui dormir mais.

Agora estou acabando de escrever esse texto, onde juntei duas experiências em relação a Exu. Não sei porque fiz isso, talvez pelo caráter desmistificador da sua figura.

Pra falar a verdade, essas duas estórias são bem diferentes.

Primeiro um Exu que chora, sorri e ensina o bom – humor, o auto – conhecimento e o não julgamento. 

Depois um Exu que preocupa – se com o “pessoal lá de baixo”. 

Diferente, principalmente daquilo que estamos acostumados a ouvir dentro do meio umbandista.

Talvez Exu esteja mudando. Talvez nós, médiuns e umbandistas, estejamos mudando.

Talvez a umbanda esteja mudando.

Ou, quem sabe, a Umbanda e Exu sempre foram assim, nós que não compreendemos direito aquilo que está muito perto de nós, mas é tão diferente ao mesmo tempo.

Dizem que o pior cego é aquele que não quer ver...

PS: O termo "Ganga" é muito utilizado dentro da hierarquia do Candomblé de Nação
Angola.
Ganga forma o nome dos muitos graus existentes dentro dessa hierarquia.
"Nganga" era na antiga África o feiticeiro, o sacerdote, o ritualista.

Depois esse termo acabou por virar Ganga. É inclusive dessa raiz que muito provavelmente venha "Ganga - Zumba", o lendário rei dos Palmares, tio de Zumbi dos Palmares. Além disso, diz João do Rio em seu livro, "As Religiões no Rio", que "Ganga - Zumba" é como os negros Cambindas chamam uma divindade muito parecida com o Oxalá dos nagôs - yorubás. Por fim, ainda existe todo um culto afro - cubano denominado os "Santos Ganga", muito parecido com a Santeria Cubana.


                                               Exu x Kardecismo


Salve amados irmãos é com muita alegria que recebo esta oportunidade para falar de
Exu e vou aproveita-la para esclarecer um assunto que me parece polemico: o fato de existir
ou não Exu trabalhando junto as correntes kardecistas.

Bem uma coisa é clara, para todos nós, em sua forma característica, eles não incorporam no kardecismo , isso é fato, mas afinal tem ou não espíritos no grau de “guardiões” a proteger o trabalho Kardecista ? para que cada um julgue e considere segundo suas concepções do que é um Exu , vou me limitar apenas a transcrever alguns trechos de livros da série "Nosso Lar" de André Luiz psicografado por Chico Xavier:

* De súbito, um companheiro de alto porte e rude aspecto apareceu e saudou-nos da diminuta cancela , que nos separava do limiar, abrindo-nos passagem.

Silas no-lo apresentou, alegremente.

Era Orzil, um dos guardas da mansão, em serviço nas sombras.

A breves instantes , achávamo-nos na intimidade de pouso tépido.

Aos ralhos do guardião dois dos seis grandes cães acomodaram-se junto de nós , deitando-se-nos aos pés.

Orzil era de constituição agigantada , figurando-se-nos um urso em forma humana.

No espelho dos olhos límpidos mostrava sinceridade e devotamento.

Tive a nítida ideia de que éramos defrontados por um penitenciário confesso ,a caminho da segura regeneração. "Ação e Reação" pg62

*Três guardas espirituais entraram na sala , conduzindo infeliz irmão ao socorro do
grupo. "Nos Domínios da Mediunidade"pg.53

*Apenas o irmão Cássio, um guardião simpático e amigo, de quem o assistente nos
aproximou, demonstrava superioridade moral." Nos Domínios da Mediunidade " pg.251

Bem não precisamos nos alongar não é , encontraremos o mesmo tema abordado em
várias outras obras de cunho Espirita-Kardecista, só para citar mais uma, do autor
J.R.Rochester, que se é polemico no entanto tornou-se um clássico, temos na obra "Os Magos"
um certo Abin-ari espirito sem luz que vive de retirar de nosso meio os espíritos rebeldes e
"larvais" que se voltam contra a humanidade.

Espero Ter ajudado na compreensão do mistério Exu, que formam uma hierarquia muito forte de trabalhos espirituais no astral, onde muitas destas hierarquias já estavam formadas antes da Umbanda, mas que por ela foram absorvidas sem deixar de prestarem o seu trabalho a outras religiões ou grupos espiritualistas, onde estiver um “guarda do astral”, um “guardião da luz para as trevas”, um
“penitenciário confesso” trabalhando no resgate e proteção entre a luz e as trevas lá estará o que na
Umbanda se chama Exu, no caso do kardecismo vimos estes guardiões trabalhando no astral,
só não tem eles ali a liberdade de ação que encontram na Umbanda de incorporar, fazer
descarrego, barganhar com outros incorporados, trabalhar na magia... porque tudo isso não
cabe dentro da dinâmica Kardecista... é próprio de Umbanda... um abraço de vosso irmão
em Oxalá Alexandre Cumino

                                         Saravá aos Pretos-Velhos
por Adriano Camargo

Preto Velho vem... vem de Aruanda... firma seu ponto com arruda e guiné... Em seu terreiro
ele não pede o seu nome... em seu Congá ele não perde a sua Fé... Saravá aos Pretos e Pretas
Velhas... Salve Vovós e Vovôs.

Atrelado à comemoração da libertação dos escravos no Brasil, no mês de Maio a maioria dos
terreiros de Umbanda saúda essa amada linha de trabalho que tanta Luz derrama em nossas vidas.

Ao vê-los arqueados em suas manifestações, sempre simples e humildes mas não por isso servientes, nãovemos a grandiosidade de seu campo de atuação: que é vastíssimo enquanto Manifestação Divina.

Formada por falanges inteiras de espíritos que de alguma forma estão ligados à Evolução pelos
Sentidos, trazem em sua força de trabalho a palavra amiga, o consolo, a tranquilidade característica
dos que trabalham pela evolução da humanidade.

Chamada de Linha das Almas por muitos, não deixa de ser verdade.

Vemos muitos Vovôs e Vovós que respondem por nomes simbólicos de suas falanges ligadas ao Cruzeiro, por exemplo: Vovó Joana do Cruzeiro... Cruzeiro é um mistério ligado ao Trono da Evolução, Pai Obaluaê.

Mas também ligado pelo símbolo da cruz ao Trono da Fé, Pai Oxalá... mas isso não impede que haja manifestação de entidades ligadas a outras irradiações. Há ainda dentro da Umbanda a resistência de alguns médiuns quando são intuídos pelos seus guias, quanto a seus nomes simbólicos de trabalho, senão com certeza teríamos muitos “Pai João da Terra”, ou “Pai Joaquim das Águas e porque não Vovó Catarina do Fogo Divino...”.

Identificam-se pela sua origem africana como do Congo, de Angola, de Guiné, que dizem
respeito a sua linha de trabalho e campo de atuação.

Marcada pela presença do Negro na Umbanda, de forma nenhuma a religião poderia deixar de homenagear suas origens afro e também a raça que permitiu que muitos espíritos semeadores da nova religião pudessem encarnar no Brasil sem chamar muita atenção.

A primeira manifestação relatada da Linha dos Pretos Velhos é descrita na história de Pai Zélio
de Moraes: no dia em que houve a manifestação do Sr. Caboclo das 7 Encruzilhadas, na casa que em
seguida seria batizada de Nossa Sra. da Piedade, nesse mesmo dia houve a manifestação de Pai
Antônio.

O espírito do ex-escravo ali incorporado parecia sentir-se nada à vontade. Curvado, alquebrado, evitou ficar na mesa ali posta para as manifestações e despertou pela sua humildade um
sentimento de compaixão entre as pessoas ali presentes.

Questionado porque não se sentava, o arredio Velhinho respondeu:

“- Nêgo num senta não, sinhô... Nêgo fica aqui mermo... Isso é coisa de sinhô branco, i nêgo
deve arrespeitá. Nêgo fica aqui nu toco, qui é o lugá di nêgo.”

Estava firmada ali a presença do Preto Velho na Umbanda.

E esse trejeito humilde, simples, honesto, sem pedir nada em troca, sempre em nome do Pai Criador, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, essa naturalidade cativa dia a dia os filhos de Umbanda e todos aqueles que procuram ajuda nos templos. E se em suas manifestações trazem plasmadas as formas de suas existências como escravos, saibam que essas falanges acolhem muitos e muitos espíritos afins com suas vibrações de Fé, Amor, Conhecimento, Justiça, Lei, Sabedoria e Vida, que não necessariamente foram escravos em suas existências anteriores.

A naturalidade de um Preto Velho é indescritível.

É algo que sentimos, e se de coração aberto estivermos para absorvê-la como benção, então durará muito em nosso íntimo.

Ao ver um Preto Velho em terra, pitando seu cachimbo, sentado em seu banquinho, não tenha vergonha, ajoelhe-se e peça sua benção.

Com certeza ele está ali, em seu banquinho, baixinho perto do chão, para que segurando em nossas mãos clamem ao criador bênçãos de Paz, Saúde, Harmonia, Prosperidade e Fé, muita Fé!

Saravá Senhores e Senhoras das Correntes de Pretos Velhos...
Axé...

Salve as Almas...

Vossa Benção!!!

Saudação aos Pretos Velhos

Meu Preto Velho de Batalha;
Faz de mim um batalhador;
Meu Preto Velho de Batalha;
Faz de mim um batalhador;
Abençoe os Pretos Velhos;
Santas Almas do Senhor.
Preto Velho de batalha,
Faz de mim um batalhador;
Abençoe os Pretos Velhos,
Santas Almas do Senhor.
____________________________________________________________
Quando eu andava, pelo deserto,
Ouvi uma voz de longe me chamar;
Quando andava, pelo deserto,
Ouvi uma luz de longe me chamar;
Quando eu andava preso no pecado,
Meu Preto Velho me aconselhou;
Quando eu andava preso no pecado,
Meu Preto Velho me aconselhou.

                Desenvolvimento Mediúnico
por Rodrigo Queiroz para o JUS de Outubro de 2003

“Que vale o desenvolvimento rápido se o médium nada possui para ofertar? 

Há mérito em se oferecer taça vazia para aquele que agoniza de sede?”

Ramatis
Falar sobre a mediunidade e sua mecânica é algo muito comum no meio espiritualista.

Porém, é sempre um tema bastante complicado e polêmico. Exige sempre muita responsabilidade.
Mas o que todo autor sempre espera do seu leitor é que ele reflita e pondere sempre para o bom
senso crítico, racional e emocional.

Dia a dia chegam pessoas novas para o nosso meio religioso, na maioria das vezes dotadas de
mediunidade a ser desenvolvida, e é aí que mora o perigo...

A mediunidade tem várias funções para o ser humano, sendo que a principal é encaminhar o
médium a uma evolução acelerada.

Mas como usar disto para evoluir?

Ora irmão, ser médium não é ser diferente de ninguém; na verdade, é ter que saber resolver os seus problemas e os dos que te procuram, e digo isso a “grosso modo”.

Mas, para se ter este equilíbrio, é necessária uma caminhada ao seu interior.

A espiritualidade espera sempre que com o desenvolvimento mediúnico a pessoa busque sua reforma íntima, a fim de ser ajudada e depois poder ajudar o próximo. Quando digo “se ajudar”, quero dizer que a pessoa deve encontrar seus erros e seus defeitos e na sequência buscar o aprimoramento moral.

Somente assim a mediunidade começará a ter função em sua vida.

Senhores médiuns, problemas materiais todos nós temos; então, isso nunca deverá ser desculpa
para evitar os seus trabalhos mediúnicos e caritativos. Devemos saber administrar tudo isso, sem que
uma coisa atrapalhe a outra.

Médiuns, vocês são o espelho dos que lhe procuram.

Então parem e pensem: “Eu estou sendo um bom exemplo?”.

Por favor, não venham com a conversa de que sua vida particular não tem nada a ver com a
mediúnica.

Esta desculpa é o mais cruel pecado que o médium pode cometer.

Outros usam um ditado que diz: “Faça o que eu falo e não faça o que eu faço”.

Um ABSURDO!

Ser médium é buscar viver a vida terrena em paralelo com a vida espiritual e, para isso, é
necessária a reforma íntima, a evangelização e o estudo teológico da religião.

É o tal do “Orai e Vigiai”; porém, na verdade, devemos vigiar e orar.

Agora, para que sair desenvolvendo sua mediunidade de forma desordenada e acelerada se você
nem sabe o que vai fazer com este dom? Para quê? Para daqui a alguns anos você jogar no lixo?!

Saiba irmão que, nessa história de mediunidade, o maior necessitado é você mesmo. É você que precisa se ajudar.

Ser médium é ter a função de aparelho (cavalo ou burro, como queira) para os espíritos.

Mas para ser um bom aparelho é necessário ser bem preparado, usar tecnologia de ponta, material de primeira, para que se tenha vida longa, senão será descartado rapidamente e substituído por outro. É assim que a dona de casa faz com a faca que ela compra nas lojas de “R$ 1,99”; porém, se ela comprar uma faca de marca reconhecida e que passou pelos testes de qualidade e procedência, provavelmente irá durar toda a vida.

O processo de desenvolvimento mediúnico e até mesmo a sua continuidade vai muito além dos
rodopios na gira ou do comparecimento no terreiro para incorporar um Caboclo ou Preto-velho.

Saiba que o desenvolvimento é eterno.

Após você incorporar o mentor, aí sim seu desenvolvimento espiritual começará.

O trabalho mediúnico não é só incorporar os mentores em datas e horas predeterminadas.

Já disse o grande mentor e mestre Ramatis:

 “Não conseguireis bons fluidos em horas programadas, se os contaminais com a intolerância, a cólera, a irritação e o desamor de minutos anteriores.”

Irmãos, eu gostaria de escrever muito mais, mas o nosso espaço é limitado.

Só desejo e espero que vocês se atinem ao que aqui está sendo alertado e que se preocupem com isso.

O assunto é sério e exige muita responsabilidade.

Usem o bom senso sempre, não desanimem, sempre estaremos sendo amparados.
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