sábado, 12 de setembro de 2015

Diálogo 399 - Entidade: Pai Tomé - Médium: Alexandre Coelho

Diálogo 398 - Entidade: Maria Mulambo das 7 Encruzilhadas - Ialaxé: Apar...

Diálogo 396 - Entidade: Caboclo Pena Branca - Médium: Marcos de Jagum

Diálogo 395 - Entidade: Vó Catira - Médium: Pai Marcos de Jagum

Diálogo 394 - Entidade: Exu Tiriri Lonan - Médium: Pai Marcos de Jagum

Diálogo 393 - Entidade: Exu Tiriri Lonan - Médium: Pai Marcos de Jagum

Diálogo #392 - Entidade: Exu Tiriri Lonan - Médium: Pai Marcos de Jagum

A Teosofia do Sinal da Cruz




O Significado Universal de um Velho Símbolo Cristão

Um diamante não perde seu significado, ou seu valor, por estar enterrado no solo e no barro: tampouco o ouro ou qualquer pedra preciosa. Assim, o fato de que algo bom seja esquecido ou ignorado não pode diminuir o seu valor: ao contrário, torna-o ainda mais valioso.

O mesmo ocorre com a sabedoria antiga e a filosofia esotérica, que ainda hoje dormem, em um berço nem sempre esplêndido, sob a superfície rotineira dos dogmas cristãos da idade média. Existe, por exemplo, uma versão esotérica, rara e esquecida da oração “Pai Nosso”, e ela foi publicada por H. P. Blavatsky no século 19.[1] Vamos abordar agora o significado esotérico e profundo de outro elemento cotidiano da cristandade: o sinal da cruz. Há séculos ele tem sido usado em todo o mundo. Na verdade, ele tem origem cabalística e possui um significado amplo, filosófico, livre de qualquer relação com crenças supersticiosas.

Em “Ísis Sem Véu” – uma das duas obras monumentais da filosofia esotérica – H.P.Blavatsky mostra em detalhes o processo pelo qual o cristianismo de Roma apropriou-se dos antigos conhecimentos das tradições “pagãs” de sabedoria e, em seguida, passou a perseguir estas mesmas tradições (inclusive a tradição judaica), destruindo suas obras escritas e matando os seus mestres e alunos. Item por item, H.P.B. vai demonstrando que a teologia romana cristã é, na verdade,“pagã”.

Ela escreve: “Seria realmente muito doloroso tirar de Roma, de uma única vez, todos os seus símbolos; mas é preciso fazer justiça aos hierofantes despojados. Muito tempo antes que o sinal da Cruz fosse adotado como símbolo cristão, ele era empregado como um sinal secreto de reconhecimento pelos neófitos e pelos adeptos.”

Em seguida, H.P.B. cita palavras de Eliphas Levi, em sua obra “Dogma e Ritual da Alta Magia”: “O sinal da cruz adotado pelos cristãos não pertence exclusivamente a eles. Ele é cabalístico e representa as oposições e o equilíbrio quaternário dos elementos. Constatamos, na estrofe oculta doPater, à qual aludimos em volume anterior desta obra, que havia originalmente duas maneiras de fazê-lo, ou, pelo menos, duas fórmulas muito diferentes para expressar o seu significado; uma reservada aos sacerdotes e aos iniciados; e outra, comunicada aos neófitos e aos profanos. Assim, por exemplo, oiniciado, levando a mão à fronte, dizia:A ti’; então ele acrescentava;pertencem’; e continuava, enquanto levava a mão ao peito –o reino’; depois, ao ombro esquerdo;a justiça’; e ao ombro direito;e a compaixão’. Então ele juntava as mãos e acrescentava: ‘Através dos ciclos da geração: Tibi sunt Malkhuth,et Gerburah et Hesed, per Aeonas’ – um sinal da Cruz total e magnificamente cabalístico, que as profanações do gnosticismo fizeram a Igreja praticante e oficial perder por completo.” [2]

Até aqui, Eliphas Levi, citado por H.P.B. Vejamos agora, ponto por ponto, algo sobre o significado deste gesto simbólico e das palavras cabalísticas associadas a ele: “A ti pertencem o reino, a justiça e a compaixão. Através dos ciclos de geração.”

1) “A ti pertencem” – As palavras “a ti” se referem a Atma, o sétimo princípio da anatomia oculta do ser humano. Este é o princípio supremo imortal, o eu superior que vive em unidade com a lei do universo, simbolicamente situado na testa.

2) “o reino,” – Ou seja, o reino dos céus, situado no peito ou no coração. Esta é a consciência do mundo divino, a luz espiritual, Buddhi, o sexto princípio da compreensão universal das coisas, o amor universal.

3) “a justiça e a compaixão.” – Estes são os dois pratos da balança. O reino dos céus (consciência divina) é feito de justiça e compaixão, e para afirmar-se necessita do equilíbrio entre estes dois fatores.  Qualquer uma destas duas virtudes só pode existir com base na outra. Sem justiça, a compaixão é falsa. Sem compaixão, a justiça é falsa. Sem justiça e compaixão, não há consciência divina (reino dos céus). O amor universal é feito de justiça e compaixão. É graças às duas virtudes (inseparáveis do discernimento) que o estudante tem acesso ao princípio Supremo e superior (Atma), simbolicamente situado na testa.

4)Através dos ciclos da geração.” – As palavras “os ciclos da geração” se referem ao caráter cíclico do tempo eterno e mais especificamente à reencarnações de cada individualidade humana. Aqui a sabedoria da Cabala aponta para a “doutrina dos ciclos”, uma parte essencial da teosofia.

Os dois ombros humanos simbolizam a responsabilidade do indivíduo diante da vida. É a combinação de justiça (ombro esquerdo) e compaixão (ombro direito) que permite ter força e estabilidade ao longo de uma encarnação.

O sinal da cruz cabalístico aciona quatro fatores, e tem relação direta com os quatro elementos (fogo, água, terra e ar). Ele também se refere à Tetraktis ou Tétrade sagrada dos pitagóricos; aos quatro pontos cardeais; e ao Tetragrammaton, o nome de quatro letras da divindade na tradição mística judaico-cristã (IHVH).

A dimensão geométrica e o significado interior do sinal da cruz têm fortes correlações com a filosofia maçônica e a sabedoria salomônica. O templo de Salomão, esotericamente, simboliza o corpo humano.

Para a filosofia antiga e teosófica, como para o cristianismo autêntico, o corpo humano é o grande templo, e os templos físicos são apenas símbolos externos dele. O corpo é a casa do Espírito: “o Espírito está dentro de nós”.  Em I Coríntios 3:16, o Novo Testamento afirma: “Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”  E em II Coríntios 16, lemos: “Porque vós sois o templo vivo de Deus”.

Segundo a tradição, o templo de Salomão está voltado para o Leste e possui duas colunas, chamadas de “Boaz” e “Jachin”. Idealmente, ao fazer o sinal da cruz, o estudante de sabedoria divina não só se reconhece como um templo vivo, mas também está voltado fisicamente para o Leste, o Nascente. Seus ombros e braços correspondem às colunas. O termo “Boaz”, que corresponde ao ombro esquerdo ou coluna Norte, significa “na força” ou “em fortaleza”. O termo “Jachin”, que corresponde ao ombro direito ou coluna Sul, combina uma abreviatura de “Jeová” (Divindade) com um termo que significa “Estabelecer”.

Assim, quando fazemos a correlação do sinal da cruz cabalístico-cristão com a tradição salomônica e maçônica, vemos o seguinte: “O reino dos céus (Jeová, a Sabedoria Divina) tem força, isto é, se estabelece como uma fortaleza, quando tem por base a Justiça.

Quando reconhecemos o corpo humano como um templo, isto é, um invólucro externo de uma presença divina interior, podemos perceber a relação prática entre o sinal da cruz cabalístico e outro campo de conhecimento, a Filosofia da Ioga.

Vejamos, passo a passo, como se dá esta correlação. Inicialmente, enquanto o devoto pronuncia ou pensa as palavras “A ti pertencem”, o sinal da cruz ativa a testa, um ponto intermediário entre os dois chacras superiores, respectivamente localizados no alto da cabeça (chacra Sahasrara) e entre os dois olhos (chacraAjna).

A seguir, enquanto o devoto pronuncia as palavras “o reino”, o sinal da cruz toca uma parte do corpo que se refere ao chacra Anahata, localizado no coração.  Em seguida, o estudante toca os dois ombros, pronunciando, respectivamente, as palavras “a justiça” (ombro esquerdo) e “a compaixão” (ombro direito).

Os dois ombros simbolizam as duas correntes energéticas ou “colunas” (Nadis) que ligam os chacras, segundo a ioga.  Uma das correntes é positiva e ativa: a Justiça. A outra é compreensiva e contemplativa: a Compaixão.

Finalmente, ao unir as duas mãos enquanto pronuncia as palavras “Através dos ciclos de geração”, o devoto fecha o círculo harmonizando simbolicamente os dois hemisférios cerebrais, os dois nadis e as correntes yang e yin em sua natureza interior.

Esta visão esotérica do sinal da cruz vai além de mostrar a relação viva que há entre o corpo e a alma, ou entre o templo e o espírito. A prática original do sinal da cruz é, também, um modo ativo e consciente de expressar o compromisso do indivíduo atento com a consciência universal.

Através do verdadeiro sinal de cruz, que nada tem a ver com superstições, o indivíduo se estabelece simbolicamente na consciência divina.  Ele assume por mérito próprio “o poder que o faz parecer nada aos olhos dos outros”.  Ele assume o poder de estar em união fraterna com a Lei Universal e com todos os seres.
             
         O Pintassilgo e o Poço



por rubem alves


Um velho feiticeiro dizia a seu apren­diz que o segredo de sua arte estava em aprender a fazer o mundo parar. Tal conselho parece loucura, mas vira sabedoria quando nos damos conta de que nosso mundo foi petrificado pelo hábito.



Acostumamo-nos a falar sobre o mundo de uma certa forma, pensamo-lo sempre dentro dos mesmos quadros, vemos tudo sempre da mesma  forma, e os sentimentos se embotam por sabermos que o que vai ser é igual àquilo que já foi. Mas, quando brincamos de faz de conta, é como se o nosso mundo repentinamente parasse à medida que a linguagem, o pensamento, os olhos e o sentimento de outro fazem surgir um mundo novo à nossa frente. Foi isso que ocorreu às pobres rãs desta parábola, já contada em outros lugares, e que vou repetir:



“Num lugar não muito longe daqui ha­via um poço fundo e escuro onde, des­de tempos ime­moriais, uma socieda­de de rãs se esta­be­lecera. Tão fundo era o poço que nenhuma de­las jamais havia visitado o mundo de fora. Esta­vam convencidas de que o universo era do tamanho do seu buraco. Havia so­bejas evi­dências científicas para corro­borar esta teoria e somente um louco, privado dos sentidos e da razão, afir­maria o contrário.



Aconteceu, entretanto, que um pintassilgo que voava por ali viu o poço, ficou curioso, e re­solveu investigar su­as profundezas. Qual não foi sua sur­presa ao descobrir as rãs! Mais per­ple­xas ficaram elas, pois aque­la estra­nha criatura de penas coloca­va em ques­tão todas as ver­dades já secular­mente sedimentadas e com­provadas em sua sociedade.



O pintassilgo morreu de dó. Como é que as rãs podiam viver presas em tal poço, sem ao menos a esperança de poder sair?  Claro que a idéia de sair era absur­da para as rãs pois, se o seu buraco era o universo, não pode­ria haver um “lá fora”. E o Pintassilgo se pôs a cantar furiosamente. Trinou a brisa suave, os campos verdes, as árvores copadas, os riachos cris­tali­nos, borboletas, flo­res, nuvens, estrelas... o que pôs em polvorosa a sociedade das rãs, que se dividiam. Algumas acreditaram e come­çaram a imaginar como seria lá fora. Ficaram mais alegres e até mesmo mais bonitas. Coa­xaram canções novas. As outras fecharam a cara. Afir­ma­ções não confirmadas pela experiência não deveriam ser merecedoras de crédito, elas alegavam. O Pintassilgo tinha de estar dizendo coisas sem sentido e mentiras.



E se puseram a fazer a crítica filo­sófica, sociológica e psicológica do seu discurso. A serviço de quem estaria ele? Das classes dominantes? Das classes do­minadas? Seu canto seria uma es­pécie de narcótico? O passarinho seria um louco? Um enganador? Quem sabe ele não passaria de uma alucinação coletiva? Dúvidas não havia de que o tal canto tinha criado muitos proble­mas. Tanto as rãs dominantes quanto as rãs dominadas (que secretamente pre­paravam uma revolução) não gosta­ram das idéias que o canto do pintassil­go estava colocando na cabeça do po­vão. Por ocasião da próxima visita o pin­­tassilgo foi preso, acusado de enga­nador do povo, morto, empalhado a as demais rãs proibidas, para sempre, de coaxar as canções que ele lhes ensi­nara...”



Texto extraído do livro “O que é religião?” (Editora Loyola – 2002)

Cantar pontos em casa.